eu, poste
Naquela noite sonhou ser um poste. Parada, estagnada, imóvel no calçadão. Sem voz, sem ouvidos, sem coração. Olhos, por algum motivo, ela tinha. Observava tanta vida passar por ela, com pressa, à noite, feito vela. Via amantes, meliantes, mulheres, crianças. Servia de apoio para os bêbados e de composição para os fotógrafos. Mulheres sendo abusadas, furtos a rodo, animais maltratados, nada podia fazer. Não tinha pele ou nariz sequer para sentir o que significava o líquido que os cachorros dela depositavam. Borboletas e pombos voavam contra a luz do sol, amigos aos pares sorriam como se não houvesse amanhã... Não se movia, mas se encantava. Continuava parada e no centro do ferro fundido, sentiu de leve um movimento perdido. Pulsou. Entendeu que ali nascia um coração. Batia de leve, não bombeava sangue, mas crescia aos poucos... Foi quando ela acordou, móvel e com vontade de andar. Naquela manhã, olhou para todos no calçadão com mais apreço. E na sombra, se viu parte dele .