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Mostrando postagens de 2016

Taças em sombra

O líquido vermelho tateia os cantos do copo Refrata na parede Conjunto aquoso imagético. É na mão dele que o copo descansa... Na mesma mão que aperta meu corpo e acaricia meu rosto após um ou dois goles. Ele sorri contra a luz da rua que entra pela janela, é bonito o contorno amarelo no seu cabelo loiro. Na parede meus cachos sempre desarrumados nossa silhueta, doce luz impedida, puro tato... Somos o todo que está em nós. Somos tudo o que o universo é. Com os lábios colados, num abraço apertado, na sombra que circula as taças inquietas, somos um. E fora da sombra, somos também.

Há ondas de pessoas no mar urbano

De segunda à sexta, a água se agita Ao final de sexta, a maré baixa, aos poucos, cala. No sábado a quebra é nas pedras comerciais É barulho e capital que não acaba mais! No domingo, a calma, enfim, tranquiliza as águas. Os carros já não mais a rua alagam. Eu, um pedaço de alga que flutua sem rumo em chão de concreto Sento na praça em busca de paz. Os carros são peixes pequenos Os ônibus carregam girinos em par. As árvores, com pulmões fracos são o mesmo que as pessoas e seus conjuntos de lata fabricada. Eu, que flutuo sem rumo em terras de concreto, volto pra casa. Vou ligar no computador o som do mar... Hoje, é o máximo que vai rolar. 
Chora o gato  Grita o carro Bate a tecla Luz na tela. Rola o gato Bato o pé Leio o passado Estou inquieta! Vou caminhar Caminho sozinha O carro mia O gato chora Meu peito cansa. Ê Juiz de Fora!

Noite clara em Ibitipoca

O fogo estala e queima a lenha. Na parede ainda descansa a imagem de nossa silhueta... Febril, inquieta, quente.  Nossas vozes, sempre roucas e aos sussuros Cantam promessas e confissões. É bonita a pureza do amor! Do lado de fora do chalé Só se ouve o puro som do que é natural. Limpo e confortante: a voz do mato.  Do meu lado, dorme como quem não tem preocupações Seu sono é leve, é baixo, contemplativo.  Após os tantos meses de história que nos trouxeram até aqui, Descansamos no peito um do outro  E amamos a felicidade do sentimento mútuo. Dividir a cama Dividir o vinho Dividir o silêncio é dividir a vida. 

Do cinza ao colorido falante

(Sobre grafite e pichação) O brado de uma alma no cimento estende os pensamentos d'um povo que só se ouve em mente. Logo o frio peito passa trazendo o olhar aéreo trancando a vista à chave fazendo do colorido céreo. E mata o significado da voz e do trabalho d'um garoto injustiçado que ao seu sonho fez nutrir. Mas as cores falam alto deixam o rastro de uma história na esperança de que um dia alguém voltará para ouvir. 

Sobre milhas de saudades de casa

Se houvesse maneira de voltar  às tardes sóbrias d'um domingo manso Logo haveria eu de ajeitar as malas e pra lá partir... Correria em direção ao lado flamejante e ao vento frio que a pele roça... Poria o vento na posição de rei, faria da terra um céu, e da serra um mar.  Isso só pra poder crer, com aquele vento contornando o peito Que nessas tardes de domingo manso eu posso voar. 

Um risco: ser mãe

Toda mulher já foi mãe. Ao menos toda mulher sexualmente ativa. Mesmo as que não querem sê-lo pensaram na situação antes de decidir não querer. Quase todas já se amedrontaram com a menstruação atrasada, camisinha furada, pílula esquecida. É o carma de quem carrega consigo um útero saudável. Nosso centro de energias sexuais e femininas, de compreensão dos instintos muitas vezes pouco mencionados pela sociedade doentia e sexista na qual vivemos. Eu, na posição de quem muito quer ser mãe, já dei até nome para os pequenos invisíveis. O tempo, todavia, é o elemento de maior peso nesse desejo que tanto arde em mim: NÃO AGORA. Quero ser mãe, não quero ser mãe agora e isso é totalmente compreensível. Quero viajar o mundo, construir uma cabana, ter uma horta num pedacinho de chão tão mágico quanto o no qual cresci para que meus filhos tenham o que tive. Claro que, como brasileira no Brasil, poucas opções me são dadas ao decidir seguir assim. Anticoncepcional é extremamente agressivo, DIU é arr...

Caminhada sem voz

      Passa carro. Cai a chuva. O vidro desenhado, pingado, poético quando desfocado. Em um quarto fechado, levemente abafado, ela passou seu sábado. Em uma casa que não era sua, embora sentisse como se fosse em alguns momentos. A chuva lhe trazia a lembrança da cidade litorânea na qual passou tantos dias antes de chegar até ali. Do outro lado da rua, um casal com passo apressado, fugindo da água como quem com ela se dissolve. Um sol, um lá, um si, um dó, um mi, tocados no banjo, no rádio. Seus pensamentos estavam inquietos, tantas ideias e tão pouca atitude em torná-las palpáveis. Acende a luz vermelha no carro do vizinho, pode estar indo, pode estar vindo, e foi. Por trás do vidro molhado, tudo vai embora mais rápido, se desfaz à compreensão ocular em menos tempo. Ela voltou para seus pensamentos, que eram ele, que eram dela. Decidiu descer as escadas e respirar um pouco da umidade que caíra do céu. Esbarrou com o um rapaz de touca roxa e cílios enormes. Eles se assust...

Nossos dias

As manhãs são leves, sorridentes.  As noites são longas, quentes.  Do meu corpo ele conhece cada centímetro Dos meus sabores ele provou o menu completo. Quando a noite cai e a luz da rua desenha na parede não há nada no mundo que nos faça sentir inseguros.  Quando nossos corpos colam um no outro pelo suor  não há nada mais consonante que nossa pele em conjunto. Podemos passar horas conversando, podemos passar horas em silêncio.  Ele disse que me ama.  Eu me assustei. Eu disse que o amo. Ele sorriu.  Nossos dias têm sido assim:  calmos como a garoa que caía  no dia de nosso reencontro. 

Ele era, para ela

Ele era, para ela, como as ondas que acariciam seus pés como a primeira luz do sol que de manhã entra pela janela como o aconchego do outono junto das cores na primavera como o catalisador de emoções, alegrias e ideias.  Ele era, para ela, o imaginário literário que ganhava vida como as palavras do Jovem Werther se fazendo palpáveis como os roteiros de Linklater com diálogos admiráveis como a paz da natureza em forma de homem. Ele era, para ela, a prova viva de que é possível compartilhar os planos mais íntimos, ínfimos, saborosos, legítimos, por amor. Ele era como a folha que caía da árvore com calma, que descansa sobre a palma da menina e a faz esquecer qualquer mesquinharia.  Mas ele é, para ela, principalmente o presente que a coincidência lhe deu com toda pureza e leveza de ser e estar, a liberdade de sentir saudade sem doer de viver a dois sem perder o uno, e de viver em um sem esquecer do duo. 

Em Paraty, chove.

Em Paraty, o tempo fechou há três dias, mesmo tempo desde a última vez em que vi o sol. Acordo todos os dias às 8, esfrego os pés no lençol, tento acordar meu corpo. Quando abro a janela, o sol não dá o ponta pé inicial de energia para começar a longa jornada de trabalho. Hoje decidi colocar meu computador de lado por um tempo e caminhar até a praia. De imediato começou a chover, e eu não me dei ao trabalho de procurar abrigo ou guarda chuva. Estava frio, meu xale voava com o vento, minha câmera já estava com a lente cheia de gotículas, eu estava sozinha. Em contraste com meu coração, que está feliz de mil formas que se possa imaginar, o tempo está bravo, gelado, corrosivo. Parei diante do mar, olhei para a parede de pedras que quebra a força das ondas. Ela fica ali, sob os pés dos viajantes na cidade, abriga ratos, fungos e histórias. Algumas das minhas, inclusive. Eu sentia saudade e talvez essa saudade aperte um pouco o peito e deixe o contexto ainda mais melancólico. Entre todos e...

Diário: o retorno do amor (ou do tormento)

No último domingo dois amigos meus se casaram. Fui madrinha. A cada palavra dos dois um para o outro eu derramava um dilúvio de lágrimas. Por trás da câmera que fotografava o acontecimento estava ele, o alvo de meu amor e saudade desde o inverno do ano passado. O sol batia em seus cabelos loiros e eu confesso que naquele momento já não olhava para ele com o carinho que há alguns meses faria. Ele era, para todos os efeitos, mais um amigo com quem em algum momento eu dormi. Claro que após todos aqueles meses, ao todo sete, desde a última vez em que nos vimos, meu coração já havia vivido todas as fases necessárias para a superação de um fim de relacionamento (se é que dá para chamar assim o que nós tivemos). Ao final da cerimônia a festa seguiu e acabamos conversando por alguns minutos, com a indiferença de dois conhecidos que já foram próximos. A música estava alta e começava a me incomodar, eu precisava de um tempo. Segui para a cachoeira, que desde o início da cerimônia estava gritand...

Ben and his plane

Você defende por anos a ideia de que as histórias românticas dos filmes e das músicas são uma invenção humana. Um clichê desnecessário, irreal, de um sistema cruel. E na maioria das vezes é... Até que uma dessas histórias acontece contigo. E não basta uma história de amor acontecer, ela ainda precisa vir acompanhada de praia, luz da lua, som das ondas e um sotaque britânico à la Dr. Who, vindo de lábios macios, que estão sob olhos verdes e cabelos loiros. Eu sei que isso tudo pode soar demasiado piegas, mas eu sou piegas da cabeça aos pés e é bom encontrar quem seja comigo. Se tem uma coisa que esses dias em Paraty me mostraram é como as coisas inusitadas são as mais deliciosas! Como a decisão de não passar uma noite em casa pode te colocar diante de um dos melhores momento da sua vida. De um dos momentos mais febris da sua vida. Como uma pequena escolha troca sua cama de hotel por uma noite rodopiando na areia nos braços de alguém incrível. Nós tínhamos um dia, depois dois e enfim, t...

Manhã de domingo

Naquela manhã de domingo, a chuva falou mais alto que o normal. Sentada no quintal, ouvindo as galinhas e observando o ritmo úmido do gramado, ela pensava em tudo que experimentara desde o inverno passado. Pensou no ano que viveu até aquele momento. O ano em que, pela primeira vez, soube o que era o amor. Todo mundo se lembra da primeira vez em que sentiu, pra valer, aquilo que os poetas cantam desde o início dos tempos: o amor puro, leve, tal qual é. Para ela, era difícil pensar que aquele sentimento, outrora tão forte e real, começava a se esvair, a se dissolver com a naturalidade do tempo que passa. Ela olhou para tudo o que viveu antes de encontrar "a pessoa", pensou nas tantas vezes e que pensou estar amando quando na verdade não estava. O amor, até que se manifeste, é mal compreendido. Pode ser facilmente confundido com a dor, com a euforia. Mas o amor, ela pensava, é calmaria. Ela voltou os olhos para porta da cozinha, o lugar em que pela primeira vez se deu conta d...

Lá vem ele

No quarto escuro, respiro minha existência.  Inspiro nostalgia. Expiro saudade. Teu nome nas entrelinhas de uma das canções   saltita diante de mim como a água em aço quente. Fico aqui dando voltas mentais, sozinha na cama, nunca encontro uma forma de seguir em frente. Não importa o tempo que passa... você fica.  Feito um bumerangue, sempre volta (direto na minha testa). E eu, feito uma criança, cambaleio, corro, tento pegar e nunca alcanço. Porque bumerangue que dá volta demais nunca vai acertar em cheio lugar algum.  E brinquedo que nunca dá certo, perde o apreço de quem  brinca. 

Alone

Insofar you get old and the wind blows faster solitude is what you expect. The pleasure of walk, contemplate, alone is from far the best thing we have even when you love someone the best is to know that you can keep foward on your own. (if you want)

Mesmos lugares, diferentes olhares

Novos olhares sobre os mesmos lugares. Analisando algumas fotos que tirei em São João del-Rei desde o dia em que cheguei aqui, é curioso como meu estado de espírito com relação à cidade modifica a forma como as fotos foram tiradas. Na primeira fase, em que eu odiava estar aqui porque não tinha ido para Pelotas estudar cinema, as as fotos são de pessoas, amigos e meu quarto, pouca paisagem, a cidade não muito me encantava. Na segunda fase, em que fui me apaixonando pela boemia do que é viver nessa cidade mineira, fotos no teatro, das ruas molhadas, da luz desfocada, da varanda, dos amores. Na terceira fase, em que eu estava bem com a cidade, apaixonada por alguém mas ainda assim querendo tentar transferência, quase não tenho fotos... Passava a maior parte do tempo estudando, paparicando e suspirando. Na quarta fase, em que me redescobri sozinha, adulta e feliz, me encantei aos poucos com o caos arquitetônico da cidade (apesar de todos os problemas), são fotos de coisas aleatórias, asfa...

Espelho

Na minha casa tem um espelho, um espelho velho que já foi de muita gente antes de ser nosso. Ele fica entre duas portas e é detalhadamente trabalhado. Quando olho pra ele, me pergunto quantas pessoas já se viram ali... Quantas histórias presenciou. Mas de tudo o que eu gosto nele, meu momento preferido é o por do sol, quando a cortina de renda desenha na parede com sua sombra e o sol colore o espelho de laranja. Não tem como não parar para olhar e ficar extasiado. É engraçado porque uma das minhas músicas preferidas começa assim: "home is where your heart is forever yarning". O que quer dizer, numa tradução livre, que lar é onde seu coração está sempre sedento, ansioso, admirado. Acho que é essa a sensação do espelho, de ver algo todos os dias e nunca se cansar da beleza que ele carrega. É quando a gente sabe que está em casa (ou em uma delas).

Livre e sozinho

Estive pensando em silhuetas. De seres, coisas e pessoas. Pensei nas tantas manhãs e tantos fins de tarde em que olhei para o sol mesmo tendo alguém em primeiro plano. Lembrei do sorriso tímido de um dos meus amores, no nariz protuberante de outro, da barba ruiva contornando o queixo de um outro, e a lista segue por páginas e páginas. Olhei para o copo contra a luz da janela e ele suava, eu só via o contorno e as gotas brilhando contra a luz alaranjada... Aquela água bem que podia ser o suor de alguém. Olhei pra folha pendurada no pessegueiro, dançando com o vento sob os holofotes do sol... Aqueles galhos entrelaçados bem podiam ser dois da nossa espécie. Nós dois, talvez. Olhei para um pássaro que voava sozinho, que se não fosse o horário não pareceria tão livre. Aquele pássaro bem poderia ser eu... Mas pensando bem, não era?

Um texto perdido em arquivos (A deixa de 2015)

Era uma noite de sábado qualquer. As buzinas cantavam e os faróis iluminavam. Meu quarto estava escuro, a pouca luz ao redor tinha origem na vela posicionada em um dos cantos do cômodo. A música tocava baixinho, quando enfim ele chegou. Meu coração estava acelerado, excitado com a noite que, ilusoriamente, estava por vir. Beijei teus lábios, como de costume, sentei na cama, peguei na tua mão, esperando que caísse com seu corpo sobre mim... Foi quando de sua boca saíram pregos, perfurando toda essência da expectativa, todo conforto que surgiu em meu peito no momento em que, horas atrás, foi declarado estar tudo bem. Cada palavra - e eram elas previamente pensadas, obviamente - caíam em meus ouvidos como caem gotas de ácido na pele. Ardia meu peito, amargava minha boca, retornava toda dor que havia sido deixada para trás há alguns meses. "eu te amo, sempre vou amar. Você é maravilhosa, mas não posso mais lidar com nossa relação", ele disse. Não sentia verdade naquelas palavras...

Gozo da espera, a pele dos deuses!

É tênue a linha que separa a pele do êxtase  Fina, imperceptível, quase inexistente. Cada músculo que se move sob ela se assemelha a dança das nuvens no céu... lenta, degustativa, pura. Da unha que arranha as costas ao beijo que antecede o gozo, é na textura do conjunto de células epidérmicas que mora a delícia de todo e qualquer fetiche. Nos anos de espera o encontro tomou forma Diferente de toda experiência já vivida, O toque, a pele, o sabor, me deixaram como há muito não sentia... Eu sabia que deixaria. Dois corpos que há tanto tempo se entendiam, mas pouco se tocaram,  viram ali as preliminares de 600 dias gozando enfim. Nada antes, nem depois. Só suor, sexo e poesia.

Essa foto não está em preto e branco!

Imagem
Em primeiro lugar: essa foto não está em preto e branco. Eu a tirei da janela de meu quarto em uma manhã muito fria, e eu não me lembro exatamente da razão que a fez ficar dessa cor. Mas é por meio desse fato que vou começar a desenvolver a ideia desse texto: parecia preto e branco, mas não era. Os últimos meses da minha vida têm estado tão incríveis quanto confusos. Apesar da constante organização interna, do meu corpo pra fora tudo se modificava de uma forma com a qual eu não podia lidar muito bem. Pela primeira vez amei, de fato, alguém com quem me envolvi romanticamente. Amei com tal intensidade que nem pensava ser possível. Ao perdê-lo (se é que um dia o tive), sem perceber, um tapete embaixo de meus pés foi sendo puxado aos poucos. Foi sendo puxado com tanta sutileza que eu nem sequer percebi. Quando me dei conta, lá estava eu, matando a segunda garrafa de vinho, rodeada por fotografias que não significavam muito mais que um final de semana feliz, tentando aceitar a natureza d...

Gustavo: legenda de uma foto não publicada

Dá-me teu calor, que aquece carne e coração. Envolva-me até a vinda do sol poente... Porque foi nessas terras frias que encontrei, Dentro dos teus braços, o melhor lugar do mundo.

365

Qual o tamanho do mundo que inventamos nos 365 dias desde nosso primeiro encontro? Tudo que se passou, desde o segundo em que nos embramamos no banheiro mofado da casa cheia... O que aconteceu até os últimos minutos que antecederam minha fuga de sua casa em um domingo ensolarado. Um mundo de estrofes foram escritas por nossos corpos. Ouço o relógio cada vez mais alto, cada vez mais baixo, cada vez mais longe, cada vez mais mentiroso. Quanto tempo cabe em oito mil e setecentas e sessenta horas? Sete meses que arrasaram com a força de anos, que desenharam sutilmente o fim de nossas noites, nossos finais que semana, que já era previsto. O gramado sob nossos pés nas tardes no parque, as manhãs preguiçosas que seguiam a garrafa de vinho da noite anterior, os filmes que resultavam em discussões sobre relações, o cabelo embaraçado que ganhava significado, os devaneios sobre uma vida simples e cabanas feitas de container... Qual o tamanho do mundo que criamos nesses mais de quinhentos e vinte...

Diário: ansiedade

O mal do século me atingiu. Em uma geração na qual a maior parte dos jovens sofrem de ansiedade, hoje eu entro para a estatística dos afetados. Após muito tempo tranquila, hoje o stress bateu na porta e não parece estar disposto a sair tão cedo. As férias começaram há duas semanas e eu ainda não viajei, fato inédito nos últimos quatro anos. Estou enfurnada em um quarto sujo, com uma pilha de arquivos para selecionar, editar, lapidar e entregar prontos em pouco mais de 24 horas, um amontoado de contas que eu terei de pagar sozinha, plantas e uma gata que vão morrer se eu não encontrar alguém que cuide delas durante minha ausência, e isso tudo até às 9 da manhã de amanhã! Pego a estrada para o Rio e só na semana que vem eu volto para São João e vou, enfim, descansar na casa de meus pais. Mas isso só acontecerá se eu conseguir resolver todos os trâmites dessa vida adulta que não muito me agrada. Há um peso nas minhas costas, um aperto no peito, a tristeza por ter que encarar a edição de ...

Tire os sapatos

Tire fora os sapatos, guria Sob teus pés mora o centro do mundo! Sinta o calor que impera na grama A pureza da pele desnuda  O frescor da brisa do outono... E faz dos teus pés morada de sonhos.

Diário: Ligação band-aid

Hoje o dia foi uma coisa curiosa. Não, nada de muito novo, muito diferente, embora tudo tenha sido uma pequena e deliciosa aventura - até mesmo meu prato de almoço que, por falência de gás, foi pura e exclusivamente recheado por alimentos crus. Um ponto que vale ressaltar foi minha leve ansiedade, que também não foi das mais consideráveis se comparada aos níveis de ansiedade nos dias de hoje... Mas não deixa de ser uma ansiedade, principalmente para quem costuma estar sempre tranquilo. Ontem recebi uma ligação, alguém que aparentemente precisava de mim para se sentir melhor. Para o bem ou para o mal, essa pessoa em questão é aquele que guarda consigo um pedaço do meu peito. Eu, como boa amiga e ex amante que se importa com o bem estar do sujeito, jamais negaria tal ajuda, muito pelo contrário (embora não entendesse bem o porque de eu ter sido a pessoa procurada para tal ajuda). Em sua voz, podia sentir o peso, o desespero, o choro engolido... Conversamos como quem nunca teve desavença...

Diário: Os olhos da cor da grama

Era uma manhã de sexta-feira, diferente das demais. Eu estava longe de casa há pouco mais de uma semana e as viagens tendem a me deixar mais sensível. Naquele dia, acordei ao lado dos olhos verdes que há tantos dias me atordoavam - e distraíam da frustração dos últimos tempos. A luz entrava por entre a cortina (a muralha que nos separava do mundo) e chegava aos nossos pés, que involuntariamente se acarinhavam. Na estante sobre a cama, uma pilha de livros importantes, clássicos da literatura, expressão fiel da boêmia brasileira. Com suas mãos de seda, ainda contaminadas pelo cheiro de meu suor, o rapaz pegou um livro. Era Leminski. Leu em voz alta um de seus poemas preferidos. Eu me perguntava onde diabos ele se escondera por todo esse tempo! A tarde nós passaríamos no parque, um dos lugares mais aconchegantes da cidade e que, depois desse dia, ganhou um lugar ainda maior em meu coração. Era dia de sol!  E por mais que dias quentes não me agradem como um todo, fiquei feliz com ...

R U back?

I heard your voice at the phone... You said you miss me as I do... Am I dreaming? Is this true? Tomorrow you might be gone As you always have done... But 'till tomorrow comes are you back for how long?

I wish

I saw you walking by I could see your grief I could hear your shout I wish I could help... I wish I could be a relief. But a relief is not what you need. The only thing you want is bleed. You just wanna stay under rain... But I can not be your (fucking) pain.

Meu sobrenome é Piegas (sobre filmes românticos e eutanásia)

Em um desses domingos preguiçosos, em que por opção e prazer tornamos os acontecimentos melancólicos, decidi ir ao cinema sozinha. Sempre gostei de fazê-lo. O filme era um desses clichês românticos de nossos tempos e de duas coisas eu tinha (quase) certeza. 1: haveria lágrimas; 2: a trilha sonora contaria com Ed Sheeran (ou algum genérico do mesmo estilo). Meu consolo: era um filme britânico, ao menos eu teria o deleite do sotaque. Uma fila que quase dobrava a esquina estava composta por casais de todos os tipos, alguns bastante recentes e que, perdoem meu preconceito, só de olhar dava pra dizer que eles não ficariam juntos por muito tempo (mas isso fica pra próxima reflexão). Lá estava eu, uma romântica incurável, de vestido florido e tênis colorido, que mesmo sabendo que não seria nenhum Antes do amanhecer, faria com que as duas horas passassem rápido por meio de uma infiltração de ideais utópicas relacionadas ao amor. Vocês sabem como é, quando estudamos Comunicação e entramos em co...

Quando pensei não haver mais nada...

Molhei com os olhos a tua fotografia.  Não, não era a intenção. Foi erro de roteiro. Ação não planejada. Claquete não fechada. Mas meu peito, que ainda cultiva amor e saudade, esbarrou com a lembrança da tua voz... teu violão. E isso é demais, demais pra mim.  Minha pobre poesia não dá conta de expressar, aliviar, todo esse amontoado de sentimento... E tudo o que eu tenho são fotografias,  molhadas, espalhadas, cada vez mais antigas... nada novo... nada teu.  só saudade. 

Short story about leaves

Once I heard a story about two leaves that were friends. They were born at the same season and would have the same time of life. They were conected by the same twig, almost twins. One day, when winter was almost there and they knew that their time of life woudn't be much after the first snowflake, a couple sat under the tree and begun to talk. The girl was saying something about farewells and the boy was almost crying. Then the two leaves faced one another and started to pay attention in their voices. The boy said: "I'm pretty sure that this is just an end of a season, some isolated moment in our lives. Maybe I'm too optimistic, but what we had, what we shared, can not be forgoten. Even what dies go to somewhere, somehow is transformed in some kind of a new energy", at this point the two leaves understood what they were talking about. That was a goodbye. None of them would die, but "both" as "one" would not exist anymore. They thought about eve...

Delírio etílico

Naquele dia, passara da meia noite quando o álcool lhe subiu à cabeça. Um mundo passou diante de seus olhos e não era somente a música que ilustrava aquele episódio repleto de frustração: a vida era, em si, um deleite a ser apreciado, e lamentado (mesmo que momentaneamente). A luz do abajur contornava a estrutura de vidro que dava lugar ao líquido responsável por tal estado de alienação e sensibilidade. Sabia que aquele momento não duraria muito, a tristeza não lhe caía bem, não duraria mais que alguns minutos... Por esse motivo tinha de aproveitar tal sensação. Sabia que estava ali, mais perto que nunca, o responsável por seu peito dolorido e expectativas desconstruídas. Quão bela é a vida quando se mostra honesta, clara! Um dos poderes do vinho, eu suponho, é dar aos dias um novo sentido, uma verdade antes não vista. As luzes da janela tornavam-se cada vez mais desfocadas, indefiníveis... uma pintura surreal, tal como seu sentimento. Era hora de matar a garrafa, absorver o líquido av...

Tempo de inverno

"É tempo de inverno, amor! Tempo dos galhos secarem!", disse ele na última carta que escrevera. Motivado pelos dias de solidão intensa, fizera do papel um escape ao frio. Frio que fortificava-se na ausência de seu nome. Do nome dela. A menina aquecia-lhe o cobertor, mas principalmente o peito - feito raro em tempos de amores efêmeros. Sentia na xícara deixada na pia o calor de sua pele macia, os resquícios de sua presença deixados pelas digitais. Há dias não lavava a louça. A bagunça deixada por ela era ainda a única lembrança visual que restara. Caminhava toda manhã, como era de costume, e tudo o que via eram galhos secos, frutos invisíveis. Na certa aqueles galhos no chão, sem vida, eram uma metáfora para sua própria situação: sem sustenção nutricional, caíra diante da primeira ventania, aniquilado pelo mal da estação. É tempo de inverno. Os dias são frios. Mas ele gosta do frio! Ser folha seca não lhe soa ruim. Gosta da ideia de secar agora, voltar a ter cor com a primaver...

Envelope

Perdi o envelope com a tua fotografia.  Lá estava a minha preferida: você sorria.  Os óculos refletiam o céu, as folhas... meus cabelos. Com o papel, foram-se embora também as tardes de domingo, as manhãs de segunda. Despedidas? Não mais. Não mais que um adeus. Onde eu enfiei esse maldito envelope?

Chuva e alergia

A chuva durou pouco. Que pena.  É nela que vive a lembrança viva do teu toque.  Não mais que um vulto nas minhas memórias.  Sempre foi assim...  Você vinha como a chuva de verão que alivia a seca, curava minhas alergias e ritmava minha respiração... Depois ia embora. Fugaz. Com pressa. Me deixava ali,  com a cama vazia e a rinite atacada. 

Well then...

If you are looking for someone messy,  someone fucked up, someone to fix... I'm sorry, man, but I'm not the fucking  place where you'll gonna find it. 

Two leaves

It was a cold afternoon and the wind was sounding sad. I was alone and that was great! "But till when?" I could ask... Then I stopped and looked out so many leaves on the ground! It made me see the natural beauty of lonely pieces flowing free... Even when they are just one they are also two or three. (It's not different with me)

49 dias sem nós

Há algo nesse quarto de domingo que causa incômodo. Seria a limpeza? Para onde foram os lençóis compartilhados? As fronhas cobertas de DNA? Os nós em meus cabelos e a vermelhidão em minhas coxas há tempos soam como lenda! Para ser mais precisa, há exatos 49 dias.  Em 1.095 dias, nunca por mais de 20 tive meu corpo inerte ao toque alheio. Hoje, em mais um final de semana de cama vazia e playlists sinestésicas Me vejo contando os dias, as horas, as fotos, desde a última manhã em que  estive entregue aos desejos instintivos da carne e do prazer humano.  A vida toma um rumo diferente quando nos abstemos dessa forma de contato. Os personagens das comédias românticas começam a se aproximar de nós... Nossa realidade parece entrar em consonância com a as camisas de flanela com a qual passamos o final de semana inteiro, em casa, comendo, vendo cinco, às vezes seis, filmes em menos de 20 horas. A comédia faz sentido! A diferença mora em um detalhe: do contrário dos ...

Importuner

vous êtes comme un moustique vous venez, déranger et laisse.

Homesick lines

If I close my eyes I can feel the smell I can hear you tell, that I'm already home. I can listen the unique sound of those trees, can feel your arms around me, and all freedom surrounding us. I can see through my home's window the bright moon while hold my mom's spoon, eating the taste of my childhood... I miss having the table lit by its light... (I just feel homesick all the time.) If I close my eyes I can taste your skin in a kiss under my child's days tree I can hear you reading loud that book we love so while my hair lie down on your legs and with the grass grows. I can see the dogs running away from there, coming to me remembering about the years I used to live here The days when THIS sun shone over my head. Shine, shine, shine... (I just feel homesick all the time) If I strongly close my eyes I can believe that things will work out that grey will not win, city will not take me to the ground and that breath follows me where my feet are I can find the balence I...

Pele e poesia

Ouvi falar que é errado Que é melhor ter o corpo censurado Que o certo é deixar guardado, fechado Para os olhos que insensatamente maliciam Aquilo que eles vêem como valor de mercado. Mas corpo não é mercadoria, Muito pelo contrário, é poesia. Um poema de rimas livres, De estrofes infinitas, E de título autoral. (Onde não há espaço para crítica de quem não participa dessa construção.)

Atemporal

De onde estou observo o futuro ausente. A possível cabana rodeada por fungos A provável dança contemplada da janela A passível ideia de companhia matutina... Ideias, ideias. Só ideias.  Do passado inócuo trovejando no peito guardo os momentos de gozo e euforia. Deleites regados a vinho e suor noturno não mais que um domingo à luz de velas e música francesa. Inestético.  Ínfimo. Insuficiente. Volto a pensar no amontoado de madeira que esperançosamente se fará moradia... É bela a vista de lá! É bela a de agora.  Apesar de vazia a varanda mesquinha o para peito continua carregado de boas memórias.  E nessa dança mental, artística, atemporal No passado, no futuro ou no presente Só uma coisa é certa: em todos faz-se intocável.  Há cabanas, há amores, devaneios, e uma cama... preenchida de um lado só. Uma taça que nunca é usada. Um desenho de pontos que se dissolve, se espande...  e acaba.