Caminhada sem voz
Passa carro. Cai a chuva. O vidro desenhado, pingado, poético quando desfocado. Em um quarto fechado, levemente abafado, ela passou seu sábado. Em uma casa que não era sua, embora sentisse como se fosse em alguns momentos. A chuva lhe trazia a lembrança da cidade litorânea na qual passou tantos dias antes de chegar até ali. Do outro lado da rua, um casal com passo apressado, fugindo da água como quem com ela se dissolve. Um sol, um lá, um si, um dó, um mi, tocados no banjo, no rádio. Seus pensamentos estavam inquietos, tantas ideias e tão pouca atitude em torná-las palpáveis. Acende a luz vermelha no carro do vizinho, pode estar indo, pode estar vindo, e foi. Por trás do vidro molhado, tudo vai embora mais rápido, se desfaz à compreensão ocular em menos tempo. Ela voltou para seus pensamentos, que eram ele, que eram dela. Decidiu descer as escadas e respirar um pouco da umidade que caíra do céu. Esbarrou com o um rapaz de touca roxa e cílios enormes. Eles se assust...