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Caminhada sem voz

      Passa carro. Cai a chuva. O vidro desenhado, pingado, poético quando desfocado. Em um quarto fechado, levemente abafado, ela passou seu sábado. Em uma casa que não era sua, embora sentisse como se fosse em alguns momentos. A chuva lhe trazia a lembrança da cidade litorânea na qual passou tantos dias antes de chegar até ali. Do outro lado da rua, um casal com passo apressado, fugindo da água como quem com ela se dissolve. Um sol, um lá, um si, um dó, um mi, tocados no banjo, no rádio. Seus pensamentos estavam inquietos, tantas ideias e tão pouca atitude em torná-las palpáveis. Acende a luz vermelha no carro do vizinho, pode estar indo, pode estar vindo, e foi. Por trás do vidro molhado, tudo vai embora mais rápido, se desfaz à compreensão ocular em menos tempo. Ela voltou para seus pensamentos, que eram ele, que eram dela. Decidiu descer as escadas e respirar um pouco da umidade que caíra do céu. Esbarrou com o um rapaz de touca roxa e cílios enormes. Eles se assust...

Procrastinação, confusão e saudade

Estou aqui precisando trabalhar e não consigo. Minha mente continua caçando motivo pra me distrair do que é necessário. E sem entender, me peguei lendo a gente do passado, e esse encontro é um misto de riso e saudade. Queria que a gente conseguisse, nem que por um momento, recuperar um pouquinho daquele desejo insano que nos cobria toda vez em que nos encontrávamos. No nosso primeiro ano que, mesmo cheio de problemas, escorria nosso tesão pelo outro e que, agora, se manifesta de outras formas que eu estou tentando entender (e acho que você também). Éramos outros. Às vezes nem sei se sei amar como amava naquela época. Ou se quero. Tudo é diferente. O jeito de amar também. E eu abraço as mudanças, mas sinto saudade de nós. Me escorre uma lágrima no canto do olho enquanto escrevo, no escritório, e disfarço quando respondo sobre o próximo vídeo a ser entregue. Meus textos agora muito se parecem com os de quando não estávamos juntos, nos quais eu insistia em falar da falta que ...

sobre rótulos e ego

Às vezes me perco pensando nos elementos que, com o tempo, passamos a associar a nós mesmos. Nos últimos dias vi muitos amigos fazendo aquela brincadeira no stories, que desafia outras pessoas a dizerem que “fulano não é fulano sem x”. Todo mundo quando abre esse tipo de discussão já tem, dentro de si, uma ideia, pra não dizer expectativa, com relação ao que as pessoas vão dizer. Seja vindo dos amigos que nos conhecem mais intimamente ou das pessoas com quem convivemos apenas nas redes sociais e que filtramos o que vai ou não ser divulgado sobre nós. O ser humano é um animal engraçado, nisso acho que podemos todos concordar. Me aprofundei nesse pensamento e refleti sobre os diferentes tipos de “rótulos” que me fazem sentir mais em harmonia comigo mesma. Nicoly não é Nicoly sem dias de chuva, sem um chá quente, sem flash back no dia da faxina, sem música folk, sem roupas cheirando amaciante, sem ativismo, sem pés descalços, sem cuidar dos amigos como vovó… E por aí vai. Ao mesmo tempo...

Sol e sombra

Vi de longe a sombra descansar na porta ao se encostar exausta moveu os dedos não sabia se entrava ou ali fazia morada as demais formas ao seu lado dançavam (no mundo das sombras o vento é sujeito) Como quem não se segura, se deixou dançar ora era folha, ora prédio, ora criança, ora tédio comeu um pássaro e um mendigo, numa rodada transformou dois em um e três em nada ao contrário do que se espera do movimento, descansou. Quando a dança calou, já havia sido tanto que nem a porta precisou abrir para sair viveu de dentro, como quem canta mudo tornou-se o mundo, até o sol cair... e morreu.

Vivendo em São Paulo

fiz do carro o tico-tico que titubeava pelo quintal das caixinhas do concreto os eucaliptos desérticos dos bêbados da praça as capivaras selvagens no lago da voz do velho vendedor de pizza o canto da coruja dos bons dias não respondidos as pedra com quem falava do lençol de luzes dormindo no chão o céu estrelado... assim pude respirar.

Ode ao nosso tempo

Tão comum é a valorização da experiência do quanto crescemos, mudamos, melhoramos conforme amadurecemos, vivemos, sentimos tão comum é a desvalorização de um amor antigo... Se me lembro de nós naquele banheiro embrenhados no nosso delírio carnal emaranhados no próprio suor pela primeira vez como se tivesse acabado de fechar a porta é porque te desejo com a mesma força que me deu a coragem de te encurralar a melhor decisão impensada que tomei (apesar da sujeira, me senti descalça na grama) nem preciso fechar os olhos para sentir o cheiro daquele quarto onde nos conhecemos na mais profunda introspecção sexual como dizem não ser possível à primeira vista lembro da sua língua e dos seus olhos assustados do seu peito desenhado cobrindo o meu da música antiga tocando no rádio velho da delícia de descobrir seus pontos fracos de como a letra cantada entrou em harmonia com a realidade que estávamos criando... Guardo comigo cada pedacinho dessa história as noites de vinh...

Primeiro texto em São Paulo (e seu dia chuvoso)

Na chuva fria eu me arrasto com os olhos em busca de algo que me faça sentir em casa. É inverno, tem uma ávore de folhas secas, pingando. Por mais que eu queira, por mais que ame, não posso pedir mais frio, não posso esperar mais chuva, tem gente demais morando na rua. Em São Paulo a poesia se escreve de outras formas, a cada verso utópico a gente é puxado de volta para a realidade dura de uma desigualdade escancarada. Melhor não estar alienado, a poesia é obrigatoriamente realista. Tão bonita aquela árvore... Embaixo dela é o banheiro de alguns que vivem ali. Bonita de olhar, difícil de se passar perto. Andar de trem num dia nublado, olhando pela janela, melancólico, quase bucólico, desenhando formas com o bafo quente no vidro gelado. O fone não isola a voz dos meninos um pouco mais novos que eu, vendendo qualquer coisa pra se manter nessa cidade cara. Um deles tem um livro na mão, a cada parada senta e lê um pouco. É de sorrir e de doer. Desci na República, sei que estou chegando em ...

fora de mim

Do alto da cabeça onde dizem viver a razão feito represa sem barragem que alaga tudo tomou conta de mim uma raiva explosiva de repente, eu era um turbilhão, sem noção queria pedir ajuda mais não sabia como os sentimentos se transformaram em ação quando vi já estavam mil cacos no chão a mão trêmula sem entender o porque. Mas queria mais, queria a mesa todos os pratos a televisão... Coitado do gato assustado. Caí de costas no vidro quebrado ser ar, sem vontade, sem visão busquei conforto no abraço feri o outro de antemão. E quando a fúria passa e a calma chega descansa sobre mim a culpa de sentir não controlo a vergonha de existir por maltratar quem nada tem a ver, por ser aquilo que nem eu quero ser... por explodir.

a pele que habitamos

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Dos meus lábios escorrem seu gosto e seu suor, que há tanto já se confunde com o meu. De tudo que vivo, que vinho, que sonho, não sabemos bem onde acaba você e começo eu. Desde o primeiro contato entre as epidermes, no primeiro choque, colou. Colamos. Se me perguntam qual o cheiro do vento, digo ser o teu. Muito do teu DNA descansa sob minhas unhas... Resultado de tanta saudade que matamos ainda todos os dias, de toda vida que vivemos até nos encontramos. Já dizia Drummond que sente-se saudade também do que não se viveu. Eu, na minha inocência descalça, sentia saudade de algo que ganhou forma em você. No seu sexo. Na sua rouquidão. Vivia feliz, agora vivo melhor. A cada despedida do sol me concentro nas curvas das tuas costas acesas. Contorno amarelo perfeito de toda poesia e atração existente. Te sinto mesmo quando não sinto a mim. Nas descobertas dos tantos eus que vivem nossos dias dentro de nós, cresço. Descubro. Quando penso me entediar, o laranja da tua barba me puxa de volt...
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Nesses dias úmidos caminhamos na rua abraçados pela chuva. Cada passo nosso é feito andar em água... A gente afunda, se refresca e flutua. Nos desligamos do fato de que ao nosso redor há uma multidão de pessoas cheias de pensamentos aleatórios e vagamos, sozinhos, feito poeira de tapete batido na janela. Caímos, descansamos. Pairamos solitários, aparentemente desconectados, como as folhas que caem das árvores e flutuam no ritmo da água do lago. A gente se deixa levar. Esquece dos trabalhos e das contas pra pagar. Bom mesmo é poder caminhar assim, como quem nada no ar. Contemplar a dança das próprias mãos contra a luz do fim de tarde, entrar no apartamento e sentir no lençol o molhado de todo caminho até ali. Ouvir a chuva caindo, cantando, dormindo...

eu, poste

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Naquela noite sonhou ser um poste. Parada, estagnada, imóvel no calçadão. Sem voz, sem ouvidos, sem coração. Olhos, por algum motivo, ela tinha. Observava tanta vida passar por ela, com pressa, à noite, feito vela. Via amantes, meliantes, mulheres, crianças. Servia de apoio para os bêbados e de composição para os fotógrafos. Mulheres sendo abusadas, furtos a rodo, animais maltratados, nada podia fazer. Não tinha pele ou nariz sequer para sentir o que significava o líquido que os cachorros dela depositavam. Borboletas e pombos voavam contra a luz do sol, amigos aos pares sorriam como se não houvesse amanhã... Não se movia, mas se encantava. Continuava parada e no centro do ferro fundido, sentiu de leve um movimento perdido. Pulsou. Entendeu que ali nascia um coração. Batia de leve, não bombeava sangue, mas crescia aos poucos... Foi quando ela acordou, móvel e com vontade de andar. Naquela manhã, olhou para todos no calçadão com mais apreço. E na sombra, se viu parte dele .