Postagens

Mostrando postagens de 2018

Sol e sombra

Vi de longe a sombra descansar na porta ao se encostar exausta moveu os dedos não sabia se entrava ou ali fazia morada as demais formas ao seu lado dançavam (no mundo das sombras o vento é sujeito) Como quem não se segura, se deixou dançar ora era folha, ora prédio, ora criança, ora tédio comeu um pássaro e um mendigo, numa rodada transformou dois em um e três em nada ao contrário do que se espera do movimento, descansou. Quando a dança calou, já havia sido tanto que nem a porta precisou abrir para sair viveu de dentro, como quem canta mudo tornou-se o mundo, até o sol cair... e morreu.

Vivendo em São Paulo

fiz do carro o tico-tico que titubeava pelo quintal das caixinhas do concreto os eucaliptos desérticos dos bêbados da praça as capivaras selvagens no lago da voz do velho vendedor de pizza o canto da coruja dos bons dias não respondidos as pedra com quem falava do lençol de luzes dormindo no chão o céu estrelado... assim pude respirar.

Ode ao nosso tempo

Tão comum é a valorização da experiência do quanto crescemos, mudamos, melhoramos conforme amadurecemos, vivemos, sentimos tão comum é a desvalorização de um amor antigo... Se me lembro de nós naquele banheiro embrenhados no nosso delírio carnal emaranhados no próprio suor pela primeira vez como se tivesse acabado de fechar a porta é porque te desejo com a mesma força que me deu a coragem de te encurralar a melhor decisão impensada que tomei (apesar da sujeira, me senti descalça na grama) nem preciso fechar os olhos para sentir o cheiro daquele quarto onde nos conhecemos na mais profunda introspecção sexual como dizem não ser possível à primeira vista lembro da sua língua e dos seus olhos assustados do seu peito desenhado cobrindo o meu da música antiga tocando no rádio velho da delícia de descobrir seus pontos fracos de como a letra cantada entrou em harmonia com a realidade que estávamos criando... Guardo comigo cada pedacinho dessa história as noites de vinh...

Primeiro texto em São Paulo (e seu dia chuvoso)

Na chuva fria eu me arrasto com os olhos em busca de algo que me faça sentir em casa. É inverno, tem uma ávore de folhas secas, pingando. Por mais que eu queira, por mais que ame, não posso pedir mais frio, não posso esperar mais chuva, tem gente demais morando na rua. Em São Paulo a poesia se escreve de outras formas, a cada verso utópico a gente é puxado de volta para a realidade dura de uma desigualdade escancarada. Melhor não estar alienado, a poesia é obrigatoriamente realista. Tão bonita aquela árvore... Embaixo dela é o banheiro de alguns que vivem ali. Bonita de olhar, difícil de se passar perto. Andar de trem num dia nublado, olhando pela janela, melancólico, quase bucólico, desenhando formas com o bafo quente no vidro gelado. O fone não isola a voz dos meninos um pouco mais novos que eu, vendendo qualquer coisa pra se manter nessa cidade cara. Um deles tem um livro na mão, a cada parada senta e lê um pouco. É de sorrir e de doer. Desci na República, sei que estou chegando em ...

fora de mim

Do alto da cabeça onde dizem viver a razão feito represa sem barragem que alaga tudo tomou conta de mim uma raiva explosiva de repente, eu era um turbilhão, sem noção queria pedir ajuda mais não sabia como os sentimentos se transformaram em ação quando vi já estavam mil cacos no chão a mão trêmula sem entender o porque. Mas queria mais, queria a mesa todos os pratos a televisão... Coitado do gato assustado. Caí de costas no vidro quebrado ser ar, sem vontade, sem visão busquei conforto no abraço feri o outro de antemão. E quando a fúria passa e a calma chega descansa sobre mim a culpa de sentir não controlo a vergonha de existir por maltratar quem nada tem a ver, por ser aquilo que nem eu quero ser... por explodir.

a pele que habitamos

Imagem
Dos meus lábios escorrem seu gosto e seu suor, que há tanto já se confunde com o meu. De tudo que vivo, que vinho, que sonho, não sabemos bem onde acaba você e começo eu. Desde o primeiro contato entre as epidermes, no primeiro choque, colou. Colamos. Se me perguntam qual o cheiro do vento, digo ser o teu. Muito do teu DNA descansa sob minhas unhas... Resultado de tanta saudade que matamos ainda todos os dias, de toda vida que vivemos até nos encontramos. Já dizia Drummond que sente-se saudade também do que não se viveu. Eu, na minha inocência descalça, sentia saudade de algo que ganhou forma em você. No seu sexo. Na sua rouquidão. Vivia feliz, agora vivo melhor. A cada despedida do sol me concentro nas curvas das tuas costas acesas. Contorno amarelo perfeito de toda poesia e atração existente. Te sinto mesmo quando não sinto a mim. Nas descobertas dos tantos eus que vivem nossos dias dentro de nós, cresço. Descubro. Quando penso me entediar, o laranja da tua barba me puxa de volt...
Imagem
Nesses dias úmidos caminhamos na rua abraçados pela chuva. Cada passo nosso é feito andar em água... A gente afunda, se refresca e flutua. Nos desligamos do fato de que ao nosso redor há uma multidão de pessoas cheias de pensamentos aleatórios e vagamos, sozinhos, feito poeira de tapete batido na janela. Caímos, descansamos. Pairamos solitários, aparentemente desconectados, como as folhas que caem das árvores e flutuam no ritmo da água do lago. A gente se deixa levar. Esquece dos trabalhos e das contas pra pagar. Bom mesmo é poder caminhar assim, como quem nada no ar. Contemplar a dança das próprias mãos contra a luz do fim de tarde, entrar no apartamento e sentir no lençol o molhado de todo caminho até ali. Ouvir a chuva caindo, cantando, dormindo...

eu, poste

Imagem
Naquela noite sonhou ser um poste. Parada, estagnada, imóvel no calçadão. Sem voz, sem ouvidos, sem coração. Olhos, por algum motivo, ela tinha. Observava tanta vida passar por ela, com pressa, à noite, feito vela. Via amantes, meliantes, mulheres, crianças. Servia de apoio para os bêbados e de composição para os fotógrafos. Mulheres sendo abusadas, furtos a rodo, animais maltratados, nada podia fazer. Não tinha pele ou nariz sequer para sentir o que significava o líquido que os cachorros dela depositavam. Borboletas e pombos voavam contra a luz do sol, amigos aos pares sorriam como se não houvesse amanhã... Não se movia, mas se encantava. Continuava parada e no centro do ferro fundido, sentiu de leve um movimento perdido. Pulsou. Entendeu que ali nascia um coração. Batia de leve, não bombeava sangue, mas crescia aos poucos... Foi quando ela acordou, móvel e com vontade de andar. Naquela manhã, olhou para todos no calçadão com mais apreço. E na sombra, se viu parte dele .

domingo

Domingo é dia de folia Mas é daquelas internas Calmas, sem gritaria... Dia de olhar para o céu e decifrar cantigas Comer sem pressa, deixar a louça na pia Esperar a noite chegar tranquila E então calar no quarto escuro  Ouvir a chuva cair fria E aqui, deitada no teu peito Nem ouso respirar Que é pra não afastar do meu ouvido O som do seu coração pulsando Cantando, cada vez mais calmo No tempo das gotas que caem na janela Enquanto você dorme E sonha... Até domingo.