a pele que habitamos

Dos meus lábios escorrem seu gosto e seu suor, que há tanto já se confunde com o meu. De tudo que vivo, que vinho, que sonho, não sabemos bem onde acaba você e começo eu. Desde o primeiro contato entre as epidermes, no primeiro choque, colou. Colamos. Se me perguntam qual o cheiro do vento, digo ser o teu. Muito do teu DNA descansa sob minhas unhas... Resultado de tanta saudade que matamos ainda todos os dias, de toda vida que vivemos até nos encontramos. Já dizia Drummond que sente-se saudade também do que não se viveu. Eu, na minha inocência descalça, sentia saudade de algo que ganhou forma em você. No seu sexo. Na sua rouquidão. Vivia feliz, agora vivo melhor. A cada despedida do sol me concentro nas curvas das tuas costas acesas. Contorno amarelo perfeito de toda poesia e atração existente. Te sinto mesmo quando não sinto a mim. Nas descobertas dos tantos eus que vivem nossos dias dentro de nós, cresço. Descubro. Quando penso me entediar, o laranja da tua barba me puxa de volta e da mesma direção ouço sua melodia cantando seu amor por mim. Sou brega sem querer, sem perceber. E gosto. Feito as câmeras dançantes de Tarkovski, seu corpo vai se transformando em montes, montanhas. Preciso explorar. Nas trilhas que entrelaçam seu poço de sentimentos e inquietudes, me perco. Gosto do mistério que vive em tanta verdade. A mais bela floresta pela qual caminhei é você.  Meus dedos te contornam na esperança de se fundirem à sua pele e em alguns momentos é como se assim o fosse. Paraliso. Volto a mim quando me chama. Sorrio. Mordo os lábios. Caio nas tuas costas, me aconchego na tua carne, agarro seus cabelos com carinho, sinto o cheiro do teu pescoço. Cesso. Amo.

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