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Mostrando postagens de outubro, 2016

Do cinza ao colorido falante

(Sobre grafite e pichação) O brado de uma alma no cimento estende os pensamentos d'um povo que só se ouve em mente. Logo o frio peito passa trazendo o olhar aéreo trancando a vista à chave fazendo do colorido céreo. E mata o significado da voz e do trabalho d'um garoto injustiçado que ao seu sonho fez nutrir. Mas as cores falam alto deixam o rastro de uma história na esperança de que um dia alguém voltará para ouvir. 

Sobre milhas de saudades de casa

Se houvesse maneira de voltar  às tardes sóbrias d'um domingo manso Logo haveria eu de ajeitar as malas e pra lá partir... Correria em direção ao lado flamejante e ao vento frio que a pele roça... Poria o vento na posição de rei, faria da terra um céu, e da serra um mar.  Isso só pra poder crer, com aquele vento contornando o peito Que nessas tardes de domingo manso eu posso voar. 

Um risco: ser mãe

Toda mulher já foi mãe. Ao menos toda mulher sexualmente ativa. Mesmo as que não querem sê-lo pensaram na situação antes de decidir não querer. Quase todas já se amedrontaram com a menstruação atrasada, camisinha furada, pílula esquecida. É o carma de quem carrega consigo um útero saudável. Nosso centro de energias sexuais e femininas, de compreensão dos instintos muitas vezes pouco mencionados pela sociedade doentia e sexista na qual vivemos. Eu, na posição de quem muito quer ser mãe, já dei até nome para os pequenos invisíveis. O tempo, todavia, é o elemento de maior peso nesse desejo que tanto arde em mim: NÃO AGORA. Quero ser mãe, não quero ser mãe agora e isso é totalmente compreensível. Quero viajar o mundo, construir uma cabana, ter uma horta num pedacinho de chão tão mágico quanto o no qual cresci para que meus filhos tenham o que tive. Claro que, como brasileira no Brasil, poucas opções me são dadas ao decidir seguir assim. Anticoncepcional é extremamente agressivo, DIU é arr...

Caminhada sem voz

      Passa carro. Cai a chuva. O vidro desenhado, pingado, poético quando desfocado. Em um quarto fechado, levemente abafado, ela passou seu sábado. Em uma casa que não era sua, embora sentisse como se fosse em alguns momentos. A chuva lhe trazia a lembrança da cidade litorânea na qual passou tantos dias antes de chegar até ali. Do outro lado da rua, um casal com passo apressado, fugindo da água como quem com ela se dissolve. Um sol, um lá, um si, um dó, um mi, tocados no banjo, no rádio. Seus pensamentos estavam inquietos, tantas ideias e tão pouca atitude em torná-las palpáveis. Acende a luz vermelha no carro do vizinho, pode estar indo, pode estar vindo, e foi. Por trás do vidro molhado, tudo vai embora mais rápido, se desfaz à compreensão ocular em menos tempo. Ela voltou para seus pensamentos, que eram ele, que eram dela. Decidiu descer as escadas e respirar um pouco da umidade que caíra do céu. Esbarrou com o um rapaz de touca roxa e cílios enormes. Eles se assust...

Nossos dias

As manhãs são leves, sorridentes.  As noites são longas, quentes.  Do meu corpo ele conhece cada centímetro Dos meus sabores ele provou o menu completo. Quando a noite cai e a luz da rua desenha na parede não há nada no mundo que nos faça sentir inseguros.  Quando nossos corpos colam um no outro pelo suor  não há nada mais consonante que nossa pele em conjunto. Podemos passar horas conversando, podemos passar horas em silêncio.  Ele disse que me ama.  Eu me assustei. Eu disse que o amo. Ele sorriu.  Nossos dias têm sido assim:  calmos como a garoa que caía  no dia de nosso reencontro.