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Mostrando postagens de 2017

govegan

(Março de 2013) Sinto meus pés na grama do quintal, enquanto meu corpo absorve o suco de laranja que me despertou o estômago. Os dias têm passado devagar, com calma. Caminho todos os dias, leio poesia, ouço o silêncio e vivo a introspecção que me é oferecida. Hoje, especialmente, me sinto mais ligada à toda vida ao meu redor. Fecho os olhos, respiro, vivo o dia, durmo e, quando acordo, de súbito, não como mais carne. Nunca mais. Feliz com a minha escolha, segui os próximos meses entendendo a resposta do meu corpo àquela decisão. Não conhecia ninguém que não comesse animais. (2014) Li textos, artigos, livros, vi filmes, cozinhei, conheci pessoas, chorei ao pensar no holocausto, me tranquilizei ao olhar para o prato. Fiz amigos com a mesma luta. (2017) Quatro anos e mil devaneios sobre a liberdade, sobre prazer e necessidade. Sobre saúde, política, indústria. Minha dança enfraquece se todos não puderem dançar. Quatro anos e, sem perceber, o veganismo me abraçou. Sim, ele veio a mim. Ass...

Criança, menina, mulher (e vinho)

Quando eu era menina, tinha um bilhão de ideias com relação ao que viria a ser "independência feminina". Especulava uma infinidade de teorias sobre como seria minha vida quando eu fosse uma mulher feita. Além de todo clichê da casa só tua, da liberdade para viajar, fazer o que quiser com quem quiser e quando quiser, uma das minha ambições era simples: perambular pela minha casa, de calcinha e camiseta, tomando uma taça de vinho. Claro que nesse meio tempo a gente considera todos os flertes e noites ao lado de pessoas desconhecidas, os jantares preparados pra você mesma, as noites sozinha no bar lendo poesia. Hoje, aos 23 anos, com o diploma da faculdade e dois empregos que me rendem um valor significativo (ou só suficiente para as contas mesmo) mensalmente, parece que cheguei à fase adulta de mulher independente (ou quase). Algumas coisas estão diferentes do que eu imaginava quando criança, ao invés do apartamento em Viena, continuo no Brasil e numa cidade quente. Vivo com m...

É o tumor falando

Eu me lembro de uma fase de Grey's anatomy em que um dos personagens teve câncer. O tumor era no cérebro e afetava um lugar em que a comunicação e o humor eram comprometidos. Constantemente a personagem ofendia amigos ou falava coisas sem sentido. Nos momentos em que isso acontecia, uma das amigas (e médica) dizia: "it's the tumor talking", ou seja, "é o tumor falando". A parte mais difícil de qualquer condição, principalmente quando se trata de doenças, é a aceitação de que você a tem. Isso vale também para as doenças psicológicas, mais graves ou mais leves. Todas elas igualmente difíceis no início. Sabe quando você faz algo e não entende o porque? Você fica mal depois por ter feito, por ser algo completamente contrário a tudo que você acredita e quer pra sua vida. Pois é. Ao mesmo tempo, admitir pra si mesmo que a culpa não é exatamente sua não é fácil. Eu me pego, diversas vezes, diante de situações como essa e, amigos, que barra! Não estou sendo dramáti...

Um conto qualquer

Igor tinha 28 anos e vivia seus dias como o pássaro da esquina em que passou grande parte de seus dias, ao som do pandeiro na companhia do copo americano. Ciscando de mesa em mesa, batendo papo como quem não se apega. Acordava por obrigação, comia por obrigação, contemplava por obrigação, amava por obrigação e, consequentemente, sofria por obrigação. E nessa vida onde não reconhecia seu poder de escolha, passava o tempo, virava o ano, continuava se afogando em amores e, quando não saía como o esperado, em cigarros. Fazia mestrado, contornava a porta da casa da vizinha, ajudava o Marquinhos sempre que podia. Ele invejava o menino que pedia uns trocados todas as manhãs para tomar guaraná, invejava a liberdade que o menino tinha, de viver e escolher tudo que pode e como pode. Pensava se no fundo ele também não podia... Não ia além desse questionamento. Na última semana daquela temporada de inverno, Igor voltou pra casa por outro caminho, desviou da fonte de água mineral rodeada por coroa...

Um ano

Sob meus pés: água gelada e terra Nas mãos inquietas: infância e pedras Enquanto as nuvens correm sem rumo Jogamos pedras e trocamos lembranças Sua mão me toca mais uma vez... E um ano passou como a água que corria ao nosso redor naquele dia Um ano e temos nossa casa Um ano e temos nossa vida Um ano e minhas viagens se tornaram nossas Um ano que passou feito um dia, E também feito dez anos. Hoje, olhando pela varanda do nosso apartamento Dois anos após o primeiro beijo, um ano após o segundo primeiro Vendo as luzes da cidade se acendendo Só penso no quanto contemplar com você no cômodo ao lado é bom. Penso no som da cachoeira daquele dia... O momento em que nossa história ganhou uma música: O canto da água e do vento. Foi espontâneo, leve e natural Como nós. E o que mais eu poderia querer?

Diário: Insegurança (?)

Nunca fui uma pessoa insegura. É uma coisa curiosa pensar nisso, nem mesmo durante a minha adolescência. Sempre fui muito cheia de mim, tanto no que dizia respeito à estética quanto nas minhas decisões. Um de meus ex namorados dizia que meu ego ainda derrubaria um avião. Eu ria. Eu não tinha consciência dessa minha segurança e, às vezes, narcisismo. Alguns anos se passaram e meu ego não derrubou um avião, mas derrubou a mim. Agora, enquanto escrevo com as mãos úmidas das minhas lágrimas, já nem sei dizer quem é a menina que andava pelos corredores da universidade e da vida pensando no quanto qualquer pessoa teria sorte em conhecê-la e, com mais sorte ainda, dormir com ela. Embora nunca tenha me achado a pessoa mais linda (fisicamente) no mundo, estética não era algo em que eu pensava muito... Para mim, a beleza que habitava no meu rosto não estava nos meus olhos murchos ou na minha boca grande, mas na capacidade do outro de prestar atenção na forma como a luz contorna meu queixo numa ...

Feito sacola

Feito sacola perdida na rua que voa sem rumo Dançante, inquieta, completamente sem prumo Vago pelas linhas entre a mente e coração... Carregada de poesia estética Vazia de direção. Quando foi que começou a ideia fixa que me apavora? É difícil seguir leve com tanto peso no mundo lá fora. No amor que eu deixei florescer cheio de certezas O mundo joga sujo para desmanchar toda pureza O que é semelhante e o que se difere, O que afasta e o que enriquece... Já nem sei catalogar. Do sorriso que tranquiliza à paranoia sem sentido o caminho é rápido. Frágil. A luta é brava. Mas como a sacola que flutua levinha Quero ver o vento passar por mim Me levar no fluxo da sua essência Lavar tudo de sujo que minha mente pensa. Pra voltar a ser como se deve... Brisa breve.

Gatos livres (?)

Os gatos têm esse costume... Olhar pela janela sem que entendamos exatamente para o que estão olhando. Eu tenho o costume de observa-los enquanto observam. E admito: me dói o peito ter que mante-los assim, presos num apartamento porque moramos um uma cidade perigosa demais para eles. Eu sei, são consciências diferentes, a humana e felina. Não sabemos sequer se eles entendem de fato que existe algo gigantesco do lado de fora da rede. Mas eles não nos pertencem, embora os amemos com tudo que há em nós. Animais não são nossos. Não são entretenimento ou distração. Eles são deles. Quando nós sonhamos com uma casinha nas montanhas, não sonhamos só pra nós... Sonhamos porque nesse dia será possível que eles fiquem soltos para explorar e caçar tudo que quiserem. Enquanto Xavier olha para a maritaca no prédio ao lado, eu penso no momento em que o homem decidiu domesticar animais para seu próprio benefício. Mas não vou me aprofundar nessa reflexão nesse texto, só vou dizer que eu amo dormir com...

Poema desalinhado

Minha poesia é falha e desmontada A cada verso falta peça, falta graça Penso se minha contemplação é falsa Ou se sou eu mesma que ando fraca... O vento continua calmo, contornando Os fios inquietos do meu cabelo Meus lábios continuam sensíveis ao chá que com delicadeza percebo E meus olhos continuam desejando A imagem que eu vejo no espelho Mas nessa de sofrer pelo que não fui (e agora sou) Chorar pelo amor que não tive (e agora tenho) Perco o prumo, tropeço no tempo, Sinto de novo, sem ter porque. Mas tudo bem, eu sei...  Não se resolve quebra cabeça  Em que a imagem final Não tem forma determinada.

Ser leve (?)

Ouvi dizer que tudo leva tempo... Leva tempo para uma árvore migrar de muda para adulta Leva tempo para transformar uma planta em uma casa pronta Leva tempo para ganhar intimidade com as pessoas... Leva tempo! Leva tempo pra superar os princípios densos que a sociedade nos impõe Leva tempo pra abrir mão de ideias que aniquiliam nosso bem estar Leva tempo pra se desapegar de todos os maus costumes que nos abalam TODOS OS DIAS. Leva tempo até ficarmos leves  Com o mundo, com o outro E, principalmente, com a gente. Eu sei. Porque se você não tá bem contigo Não tem poesia no mundo que vá te fazer se relacionar bem com  os outros. Nossa leveza é frágil Nossa leveza é instável Mas nossa leveza é constante Nossa leveza é flúida... Ao contrário das ideias do mundo Ela não é construída Ela já nasce com a gente. Ser leve,  é ser humano. O resto é corrente.

Feeling down

Perdida no azul que entra pela janela do quarto Entre contemplação e confusão, me entendi: Falto tanto em mim que não me basto. Busco razões para encurtar o passo Deixo de lado tudo que aprendi Parece pequeno tudo que vivi À medida que aconteço Abro bem o peito Perco o ritmo Desfaleço E aí?

Relato de um estranho

A menina é daquelas sozinhas, dizem. Não tem muitos amigos mas entende COMO NINGUÉM! O canto desses danados passarinhos. Esbarrei com ela certa vez, coberta  de mato seco e molhada de orvalho Podia ser a luz do sol mas, meu amigo, juro que vi aqueles pés brilharem! Dizem que ela escolheu amar coisas. Digo, mais coisas que pessoas. Se acredito nisso é outra história vai saber quais são suas memórias.  Dizem que ela se doeu quando viu o mundo longe do seu mar de musgo. A mãe disse que se apaixonou e se doeu. Disse que chorou toda água da chuva que um dia absorveu... e secou. Parece que ela conheceu um rapaz bom viram a menina rodopiando com ele por aí. Não consigo imaginar aqueles pesinhos sambando com quem não gosta de rodar. Mas não sei não, essa gente que cresce sozinha tem um bocado de problema quando começa  a viver com outras pessoas, dizia minha avó. (...) Esbarrei com a menina de novo! Saltitava feito criança solta. Ela disse que "amar ...

30 de maio de 2014, textos que a gente guarda, relê e sorri

Não sou – ao menos não mais – desses poetas que se doem sem fim, que não têm tempo, que se esvaem de vida. Não vou rasgar meu peito em dores por amores baldios. Passei dessa fase, a valorizada sujeira da boemia urbana, do cigarro que não é meu me atacando as narinas, dos amores passageiros e circunstanciais, de achar que careta é quem não se envenena. Meu corpo e minha mente estão em harmonia com o mundo, com os outros e comigo. Apesar da aparente derrota, sinto que tudo trabalha em prol do bem e que há de haver um resultado harmônico para tudo o que é história. Tenho comigo que é normal sofrer, o sofrimento faz parte da vida e é preciso se deixar sentir, mas também é necessário entender a hora de deixá-lo de lado. É por essas e outras que nosso equilíbrio deve estar estritamente ligado a nós mesmos, saber a hora de voltar a si, sem ser puxado por alguém, é importante. Algumas pessoas simplesmente não conseguem entender a sensibilidade do outro, para elas é um desafio viver com essas ...

PROCURA-SE: Pessoas que andam descalças

Me assusta esse paralelo entre vida real e vida na internet. É uma das coisas que não sei entender não consigo absorver, nada me convence. Não vejo separação Pra mim tudo vem do coração (Ou da estupidez) Eu sei, levo tudo a sério demais... Analiso tudo profundamente demais... Deixo detalhes afetarem as relações demais... Ainda tento me livrar de tudo o que faço demais. Mas mesmo no fluxo do que é leve e passageiro Me deixo levar pelo prazer (ou desprazer) com  os quais me encontro nas palavras dos companheiros. Não entendo e complico.  Pego o peso e duplico. Não rio, digo "nha". De engraçadinho o mundo tá cheio, dizem. De certo eu concordo, não vi muito além disso. É muita gente escondendo fraqueza Ou aumentando para doer menos. Rir é melhor que chorar, também dizem. E no meu egoísmo diário Pra que tanta busca pelo diferente, Se todo diferente é igual? Porque não buscamos o diferente e sim uma reprodução da gente. Eu aqui, eu lá, eu acolá ...

Xícara de mudança

Tudo muda. Tudo. A única certeza humana é a da impermanência. Hoje de manhã eu estava pensando nas coisas das quais sinto falta da vida no campo... De acordar de manhã e ver o sol acendendo o gramado molhado de orvalho, na luz aparecendo na hora certa (porque não há prédios no seu caminho), no cheiro das folhas acordando, no chá que eu tomava enquanto observava tudo ao meu redor e conversava com as abelhas. O chá na xícara que foi presente de casamento dos meus pais. Disse ao meu namorado o quanto gostaria de poder ter feito faculdade e vivido tudo o que eu vivi sem abandonar a simplicidade da vida em meio ao verde. Ele disse ser um momento, que vamos ter tudo isso logo menos. Não que não haja poesia onde eu vivo e vivi nos últimos anos; É diferente. Pensei em todas as mudanças que vivi até aqui, na dor inicial de toda grande quebra de hábitos e habitats. Andar em harmonia, de mãos dadas com o ritmo ininterrupto de mudanças da vida é o objetivo, é o ideal de felicidade. Tenho estado c...

Carinho diário

Do pelo arrepiado que você guarda do lado esquerdo da barba Ao beijo macio que me dá antes de fechar a porta de casa Vive a delícia dos nossos "bom dia" e "bom trabalho" Que enche minha tarde de felicidade ao saber que amanhã, ao acordar Seu beijo e sua barba arrepiada também vão estar lá.

Os três porquinhos: ode à saudade

Sinto falta de nós três, mano Do silêncio confortável  Da piada que rendia a noite Das cachaças mal viradas Dos arrotos sincronizados Das tardes ouvindo música Dos dias fazendo nada.  Sinto falta de nós três, mano Da gente no São Francisco às 3 da tarde Do DVD de flash back analisado com seriedade Dos lanches que a gente pedia depois de caminhar De conversar sem obrigação de filosofar Dos conselhos que tu me dava quando eu sofria  de coração partido, mas sem nunca julgar. Sinto falta de nós três, mano! E dos nossos planos de reformar kombis! Dos nossos porquinhos caminhando juntos Das noites na rua tocando gaita e trepando em tudo Da gente andando descalço no asfalto sujo Da gente comendo crepe como se fosse o fim do mundo! Eu tô com saudade de nós três, mano. E é daquela saudade que tu dorme a acorda pensando. Saudade de quem tem lembrança boa com gente incrível. Saudade de quem, com vocês, se sentia imbatível.  Agora, meu porquinho qu...

Versinhos em Arraial

O canto das ondas O vento do mar A areia nos dedos A criança a gritar O sol que se põe As nuvens que correm A pele que sente As algas que fogem O contorno do corpo O espelho da água O pano que voa O amor que esperava As bocas que beijam O cheiro do quente O melhor lugar: Nós dois.

Morar junto aos 22

Morar junto aos vinte e dois é pura euforia! Você encontra na rotina toda beleza dos dias. Na escova de dente na pia  Ou nos puns desritmados que viram piada. Você aprende a amar no companheiro todo tímido detalhe Desde o fio da barba ruiva desordenada à cantoria no chuveiro à tarde. E o quando o dia amanhece e você vê aquele sorriso grande Nada parece pesado ou estressante. E mesmo que o dia seja cansativo e te doa tudo Nada como chegar em casa um receber um abraço forte, e puro. Nos finais de semana, quando há tempo livre Passar a manhã na cama e a tarde contemplando a vida... Absorver da noite todo libido da juventude Suar todos os problemas da semana comum de adulto, A verdade é que isso tudo é pura poesia! (Mas vocês têm que se dar bem, ou é fria.) Viver com quem se ama é a coisa mais bonita.  E viver com a energia dos vinte e poucos é melhor ainda.

Bem me quer, mal me quer

"Bem me quer, mal me quer", disse o vento em voz alta para as margaridas agitadas pela sua força. As flores, que cambaleavam para os lados incessantemente, não entendiam bem qual o alvo dos pensamentos do vento. "Bem me quer, mal me quer", continuou. Curiosa, uma das pequenas decidiu perguntar: O que aflige seus pensamentos? O vento, já muito envolvido pela sua reflexão, havia se esquecido do poder de fala das flores brancas. Respondeu: "Há tempos os sinos não respondem aos meus estímulos, já não sei o que os fizeram parar de cantar". As margaridas agora se lembravam do sino de vento que ficava na varanda e vivia exaltado nas tardes de forte ventania. O vento continuou: "Já soprei tanto quanto podia, até assobiar sozinho assobiei e nada". As pequenas sabiam o que havia acontecido. Dias atrás ouviram os lamentos da senhora que caminhava por ali todos os dias pela manhã. Após a morte do mais velho da casa, os sinos foram retirados e guardados. Ele...

Noite que cantarola saudade

De olhos fechados, ouço tudo ao redor Os passos dos gatos, a geladeira constante Os sapatos da vizinha, os carros passando longe Tudo em par, tudo em ritmo, no mesmo tom. Ainda de olhos fechados, como num lapso na escuridão Ouço sua respiração, sinto meus pelos eriçados a cada expiração E num piscar de olhos você está aqui, deitado, ao meu lado... Com seus batimentos fora de compasso e seu sono leve de menino. É no interior da pálpebra que mora todo portal de tempo e espaço Ao fechá-las morrem os quase 200km que nos separam. Vem! Minha mente cansada sente falta das tuas piadas. Meus pés doloridos clamam pelas tuas mãos. E meu corpo, sempre sedento de você, Se torce, se molha, na espera de te receber. E sob a sinfonia dos gatos dos carros dos passos Te sinto. Te inspiro. Te amo.