Diário: Insegurança (?)
Nunca fui uma pessoa insegura. É uma coisa curiosa pensar nisso, nem mesmo durante a minha adolescência. Sempre fui muito cheia de mim, tanto no que dizia respeito à estética quanto nas minhas decisões. Um de meus ex namorados dizia que meu ego ainda derrubaria um avião. Eu ria. Eu não tinha consciência dessa minha segurança e, às vezes, narcisismo. Alguns anos se passaram e meu ego não derrubou um avião, mas derrubou a mim. Agora, enquanto escrevo com as mãos úmidas das minhas lágrimas, já nem sei dizer quem é a menina que andava pelos corredores da universidade e da vida pensando no quanto qualquer pessoa teria sorte em conhecê-la e, com mais sorte ainda, dormir com ela. Embora nunca tenha me achado a pessoa mais linda (fisicamente) no mundo, estética não era algo em que eu pensava muito... Para mim, a beleza que habitava no meu rosto não estava nos meus olhos murchos ou na minha boca grande, mas na capacidade do outro de prestar atenção na forma como a luz contorna meu queixo numa tarde de domingo ou em olhar para o meu vestido girando em câmera lenta enquanto corro para pegar o ônibus (sempre atrasada). Sim, eu sou uma apaixonada por mim (ainda que num momento difícil da relação). Tristeza sempre foi algo estritamente poético na minha vida, nunca real. A contemplação me impedia de ficar triste por mais que cinco minutos. Podia ter acontecido a pior coisa do mundo, uma borboleta passava e ficava tudo bem. Mas sem que eu me desse conta, cinco minutos se tornaram dez, vinte, meia hora, meio dia. Eu não sei exatamente quando foi que eu passei a dar importância a esse tipo de coisa ou quando foi que minha autoestima passou a se desfazer. Digo, eu tenho uma série de suspeitas, mas ainda não cheguei a uma conclusão precisa. Tantas coisas aconteceram nos últimos anos! Eu absorvi tanto! Eu doei tanto! Talvez o erro tenha sido o desequilíbrio, dei mais (talvez muito mais) do que recebi. E sequei. Sequei de mim. Enquanto eu me dissolvia, não percebi. Como parar um incêndio que você não se deu conta sequer que havia começado? É irônico, enquanto escrevo esse texto uma música chamada "Myself again" está tocando. Eu tenho tido uma relação diferente até mesmo com as fotos que tiram de mim, ou que eu mesma tiro. Não me lembro quando foi a última vez em que tirei uma foto e pensei: caralho, eu quero casar com essa mulher. Não tem maior desafio que lidar com o desconhecido. A insegurança, a dor, o desequilíbrio, são coisas totalmente novas dentro de mim e eu não faço a menor ideia do que fazer com isso! Eu me pego remoendo coisas, pesando a vida, pesando tudo. Eu! EU! Eu que sempre fui leve feito folha seca. Se eu contasse isso para os meus antigos amigos, eles não acreditariam. Não me entendam mal, eu tenho bons dias! A maior parte deles continua poética e cinematográfica. Hoje é, estritamente, um dos dias ruins em que eu fico me comparando com mentiras e sacos de osso. Eu estou precisando de uma dose de mim, talvez uma outra Nicoly para me dar uns conselhos como sempre fez... Mas sabe como é, em tempos de crise até o dois em um socrático sai perdendo. É um amontoado de murmúrios sem sentido, sem motivo, sem supervisão, que de vez em quando se mostra assim: rápido, na fragilidade da minha literatura pobre, e vai embora. E no dia seguinte, acordo feliz. Não lembro porque sequer comecei a escrever. Um abraço, um carinho, um cheiro nos gatos, uma xícara de chá, uma janela bem iluminada... Minha beleza voltou. Para combinar comigo, até a minha insegurança é bipolar!
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