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Mostrando postagens de agosto, 2018

Vivendo em São Paulo

fiz do carro o tico-tico que titubeava pelo quintal das caixinhas do concreto os eucaliptos desérticos dos bêbados da praça as capivaras selvagens no lago da voz do velho vendedor de pizza o canto da coruja dos bons dias não respondidos as pedra com quem falava do lençol de luzes dormindo no chão o céu estrelado... assim pude respirar.

Ode ao nosso tempo

Tão comum é a valorização da experiência do quanto crescemos, mudamos, melhoramos conforme amadurecemos, vivemos, sentimos tão comum é a desvalorização de um amor antigo... Se me lembro de nós naquele banheiro embrenhados no nosso delírio carnal emaranhados no próprio suor pela primeira vez como se tivesse acabado de fechar a porta é porque te desejo com a mesma força que me deu a coragem de te encurralar a melhor decisão impensada que tomei (apesar da sujeira, me senti descalça na grama) nem preciso fechar os olhos para sentir o cheiro daquele quarto onde nos conhecemos na mais profunda introspecção sexual como dizem não ser possível à primeira vista lembro da sua língua e dos seus olhos assustados do seu peito desenhado cobrindo o meu da música antiga tocando no rádio velho da delícia de descobrir seus pontos fracos de como a letra cantada entrou em harmonia com a realidade que estávamos criando... Guardo comigo cada pedacinho dessa história as noites de vinh...

Primeiro texto em São Paulo (e seu dia chuvoso)

Na chuva fria eu me arrasto com os olhos em busca de algo que me faça sentir em casa. É inverno, tem uma ávore de folhas secas, pingando. Por mais que eu queira, por mais que ame, não posso pedir mais frio, não posso esperar mais chuva, tem gente demais morando na rua. Em São Paulo a poesia se escreve de outras formas, a cada verso utópico a gente é puxado de volta para a realidade dura de uma desigualdade escancarada. Melhor não estar alienado, a poesia é obrigatoriamente realista. Tão bonita aquela árvore... Embaixo dela é o banheiro de alguns que vivem ali. Bonita de olhar, difícil de se passar perto. Andar de trem num dia nublado, olhando pela janela, melancólico, quase bucólico, desenhando formas com o bafo quente no vidro gelado. O fone não isola a voz dos meninos um pouco mais novos que eu, vendendo qualquer coisa pra se manter nessa cidade cara. Um deles tem um livro na mão, a cada parada senta e lê um pouco. É de sorrir e de doer. Desci na República, sei que estou chegando em ...