Na chuva fria eu me arrasto com os olhos em busca de algo que me faça sentir em casa. É inverno, tem uma ávore de folhas secas, pingando. Por mais que eu queira, por mais que ame, não posso pedir mais frio, não posso esperar mais chuva, tem gente demais morando na rua. Em São Paulo a poesia se escreve de outras formas, a cada verso utópico a gente é puxado de volta para a realidade dura de uma desigualdade escancarada. Melhor não estar alienado, a poesia é obrigatoriamente realista. Tão bonita aquela árvore... Embaixo dela é o banheiro de alguns que vivem ali. Bonita de olhar, difícil de se passar perto. Andar de trem num dia nublado, olhando pela janela, melancólico, quase bucólico, desenhando formas com o bafo quente no vidro gelado. O fone não isola a voz dos meninos um pouco mais novos que eu, vendendo qualquer coisa pra se manter nessa cidade cara. Um deles tem um livro na mão, a cada parada senta e lê um pouco. É de sorrir e de doer. Desci na República, sei que estou chegando em ...