Criança, menina, mulher (e vinho)

Quando eu era menina, tinha um bilhão de ideias com relação ao que viria a ser "independência feminina". Especulava uma infinidade de teorias sobre como seria minha vida quando eu fosse uma mulher feita. Além de todo clichê da casa só tua, da liberdade para viajar, fazer o que quiser com quem quiser e quando quiser, uma das minha ambições era simples: perambular pela minha casa, de calcinha e camiseta, tomando uma taça de vinho. Claro que nesse meio tempo a gente considera todos os flertes e noites ao lado de pessoas desconhecidas, os jantares preparados pra você mesma, as noites sozinha no bar lendo poesia. Hoje, aos 23 anos, com o diploma da faculdade e dois empregos que me rendem um valor significativo (ou só suficiente para as contas mesmo) mensalmente, parece que cheguei à fase adulta de mulher independente (ou quase). Algumas coisas estão diferentes do que eu imaginava quando criança, ao invés do apartamento em Viena, continuo no Brasil e numa cidade quente. Vivo com meu companheiro, que é meu grande amor, e tenho mais laços afetivos do que esperava (ou planejava?). Trabalho todos os dias e nem sempre tenho tempo para viajar. Não vejo minha irmã há quase um ano e tenho poucos amigos. Eu não me tornei astrônoma, filósofa ou cozinheira, mas estou no caminho de me tornar uma diretora de cinema para, quem sabe, enfim, levar meus olhos e mente para o mundo.  Sim, o que eu vivo é uma realidade diferente da que eu idealizava, o que não significa que seja pior. Só é diferente mesmo. Hoje, dia 12 de outubro, dia das crianças, feriado, estou em casa trabalhando, só de calcinha e camiseta na companhia de uma taça de vinho (e dois gatos), uma das ideias de independências se concretiza. Eu ainda corro e pulo, me penduro no balanço e rodopio pelas ruas. Mas sou mulher. A vida é uma estrada cheia de bifurcações e eu sempre gostei de explorar esses novos caminhos nas trilhas que fazia. Eu estou em um deles agora. Eu ainda não entendi muito bem como funciona a constante da vida, se é que ela tem uma. A independência feminina, pra mim, nesse momento, é esse poder de escolha. Essa liberdade para decidir se eu quero uma noite sozinha ou não. E ter escolhido levar a vida que eu levo, é a maior alegria que a Nicoly criança poderia desejar à Nicoly mulher. 

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