Um conto qualquer
Igor tinha 28 anos e vivia seus dias como o pássaro da esquina em que passou grande parte de seus dias, ao som do pandeiro na companhia do copo americano. Ciscando de mesa em mesa, batendo papo como quem não se apega. Acordava por obrigação, comia por obrigação, contemplava por obrigação, amava por obrigação e, consequentemente, sofria por obrigação. E nessa vida onde não reconhecia seu poder de escolha, passava o tempo, virava o ano, continuava se afogando em amores e, quando não saía como o esperado, em cigarros. Fazia mestrado, contornava a porta da casa da vizinha, ajudava o Marquinhos sempre que podia. Ele invejava o menino que pedia uns trocados todas as manhãs para tomar guaraná, invejava a liberdade que o menino tinha, de viver e escolher tudo que pode e como pode. Pensava se no fundo ele também não podia... Não ia além desse questionamento. Na última semana daquela temporada de inverno, Igor voltou pra casa por outro caminho, desviou da fonte de água mineral rodeada por coroas de espinho e decidiu se demorar nos passos até sua casa. Tropeçou num buraco que estava na rua há dias e que, por não conhecer o lugar, não vira. Ralou os joelhos e as mãos, bateu a testa no meio fio e levantou com pressa olhando para os lados. Ninguém o viu. Olhou pra baixo e pensou em tudo que era imprevisível, enquanto tentava estancar o sangue que escorria da cabeça. Lavou o rosto com a água da fonte. De súbito, viu que cair foi inevitável, mas que lavar o ferimento foi uma escolha. Pensou na bobagem daquele pensamento. Acelerou o passo balançando as mãos e espirrando água pra todo lado. Chegando em casa tomou um banho, evitando o contato direto com a água pelos ferimentos. Pensou de novo que tomar banho havia sido uma necessidade, mas que fazê-lo frio foi uma escolha para amenizar a dor. Naquela noite, quando deitou, dormiu porque precisava. Acordou por obrigação, mas comeu por fome. Abandonou o mestrado que lhe roubava tempo e disposição. Amou, vários amores, por contemplação. Igor amou e não sofreu, por opção.
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