Bem me quer, mal me quer
"Bem me quer, mal me quer", disse o vento em voz alta para as margaridas agitadas pela sua força. As flores, que cambaleavam para os lados incessantemente, não entendiam bem qual o alvo dos pensamentos do vento. "Bem me quer, mal me quer", continuou. Curiosa, uma das pequenas decidiu perguntar: O que aflige seus pensamentos? O vento, já muito envolvido pela sua reflexão, havia se esquecido do poder de fala das flores brancas. Respondeu: "Há tempos os sinos não respondem aos meus estímulos, já não sei o que os fizeram parar de cantar". As margaridas agora se lembravam do sino de vento que ficava na varanda e vivia exaltado nas tardes de forte ventania. O vento continuou: "Já soprei tanto quanto podia, até assobiar sozinho assobiei e nada". As pequenas sabiam o que havia acontecido. Dias atrás ouviram os lamentos da senhora que caminhava por ali todos os dias pela manhã. Após a morte do mais velho da casa, os sinos foram retirados e guardados. Eles traziam, à mulher, a lembrança do falecido. Então elas decidiram explicar ao vento a situação. Ele então entendeu, mas questionou: "Mas o amor, quando leve, deveria trazer sentimentos pesados na saudade? Oras, a presença da lembrança do senhor na certa seria sentida pelo atrito dos metais!" As margaridas concordaram, porém disseram que o luto pode ser sentido de várias formas. O vento então se acalmou, agora sabia para onde haviam ido os sinos. Ou pensava que sabia. Na verdade, eles estavam cantando em outros cantos, na antiga casa do velho falecido, a casa onde vive seu neto mais novo. Logo mais os ventos do norte mandariam notícias aos ventos do sul e todos saberiam sobre o destino dos sinos. Até lá, o vento decidiu soprar mais devagar na janela da viúva, como quem acalanta a solidão de uma saudade inquebrável, na esperança de aliviar o peso naquele peito agora solitário. E as margaridas, coloridas como sempre, em parceria com o vento, dançavam para aquela mulher na esperança de que aquele lamento se tornasse contemplação. Afinal, a vida sem estímulo, não é vida.
Comentários
Postar um comentário