Um risco: ser mãe
Toda mulher já foi mãe. Ao menos toda mulher sexualmente ativa. Mesmo as que não querem sê-lo pensaram na situação antes de decidir não querer. Quase todas já se amedrontaram com a menstruação atrasada, camisinha furada, pílula esquecida. É o carma de quem carrega consigo um útero saudável. Nosso centro de energias sexuais e femininas, de compreensão dos instintos muitas vezes pouco mencionados pela sociedade doentia e sexista na qual vivemos. Eu, na posição de quem muito quer ser mãe, já dei até nome para os pequenos invisíveis. O tempo, todavia, é o elemento de maior peso nesse desejo que tanto arde em mim: NÃO AGORA. Quero ser mãe, não quero ser mãe agora e isso é totalmente compreensível. Quero viajar o mundo, construir uma cabana, ter uma horta num pedacinho de chão tão mágico quanto o no qual cresci para que meus filhos tenham o que tive. Claro que, como brasileira no Brasil, poucas opções me são dadas ao decidir seguir assim. Anticoncepcional é extremamente agressivo, DIU é arriscado e causa cólicas fortes, camisinha é totalmente desconfortável e pílula do dia seguinte é uma bomba de veneno hormonal para o corpo. O anticoncepcional é o mais seguro, embora pouco saudável. Já não o tomo há alguns meses e por uma falha do látex fálico, tive que tomar pílula do dia seguinte e, aparentemente, terei de fazê-lo novamente. Antes de fazê-lo já me desculpo com meu corpo e peço para que ele, por favor, absorva tudo quanto puder da melhor maneira possível, me possibilitando utilizar as forças de meu centro energético quando estiver pronta para gerar uma pessoa. Nesse momento estou tensa. Tensão comum quando existe o risco de arrumar um bacuri antes do previsto. Meu namorado se culpa, eu o acalmo, ele tomaria os hormônios em meu lugar, se pudesse, eu sei. Sociedade machista que não desenvolve medicamentos masculinos, que trata a mulher como maquinário reprodutivo. Aborto ilegal em um dos países onde há mais casos de morte por aborto no mundo. Minha mente borbulha, penso em mil possibilidades, o que fazer, o que não fazer. Meu corpo, minhas regras, minhas escolhas, minhas consequências. Hoje, por alguns minutos, fui mãe. Agora, já não sou. Maldito látex incompetente.
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