Caminhada sem voz
Passa carro. Cai a chuva. O vidro desenhado, pingado, poético quando desfocado. Em um quarto fechado, levemente abafado, ela passou seu sábado. Em uma casa que não era sua, embora sentisse como se fosse em alguns momentos. A chuva lhe trazia a lembrança da cidade litorânea na qual passou tantos dias antes de chegar até ali. Do outro lado da rua, um casal com passo apressado, fugindo da água como quem com ela se dissolve. Um sol, um lá, um si, um dó, um mi, tocados no banjo, no rádio. Seus pensamentos estavam inquietos, tantas ideias e tão pouca atitude em torná-las palpáveis. Acende a luz vermelha no carro do vizinho, pode estar indo, pode estar vindo, e foi. Por trás do vidro molhado, tudo vai embora mais rápido, se desfaz à compreensão ocular em menos tempo. Ela voltou para seus pensamentos, que eram ele, que eram dela. Decidiu descer as escadas e respirar um pouco da umidade que caíra do céu. Esbarrou com o um rapaz de touca roxa e cílios enormes. Eles se assustaram, e sorriram.
– A noite caminha para o frio, né não? – Ele disse enquanto tirava o fone dos ouvidos, antes escondidos da chuva.
– Pois é! E eu nem esperava que hoje chovesse, pra falar a verdade. No quarto eu já estava ficando maluca, não é chuva se não molho os pés – Ela respondeu enquanto apontou para os pés de chinelo, molhados.
– Em dias de calor intenso, todo refresco é bem vindo. Você não é daqui, né? Esse sotaque me soa diferente. – Ele abriu um sorriso do tamanho do rosto enquanto dizia isso.
– Não sou, realmente. Esse "r" arrastado não me abandona! Sou do Sul, do interior. Mas tu é daqui mesmo, né?
– Sim, sim, estou voltando pra casa agora. – Disse ele, com a mão nos bolsos. Em seguida, ele olhou para o chão como quem espera uma resposta e sorriu pra si mesmo.
– Bem, e você não teria um tempinho pra compartilhar o silêncio da chuva comigo? – Ela disse, olhando por debaixo do rosto dele, sorrindo.
– Uai, por que não? Não vou fazer muito em casa mesmo... – Ele disse enquanto girava no calcanhar esquerdo e mudava a direção do passo para o mesmo lado em que ela caminhava.
Eles sorriram e seguiram caminho. Ela gostava do silêncio e quis manter assim. Os pingos dos fios no poste caíam na cabeça da menina de tempos em tempos, o rapaz continuava com um dos fones do ouvido e ela podia vê-lo batendo na coxa o ritmo de uma música qualquer. Logo ele viria a desligar aquele som. Ela tinha o hábito de olhar para tudo muito atentamente e na chuva esse costume era ainda mais perceptivo. Ela olhava para ele e apontava para algo, a única resposta que esperava era uma expressão facial, um sorriso, um espanto, um ar de contemplação, e ele entendeu o recado. Caminharam por volta de quarenta minutos, em silêncio. Quando chegou à porta de seu prédio, ela sentiu como se o conhecesse mais que qualquer outra pessoa com quem já tivesse tido horas de conversa.
– Eu me chamo Sofia, aliás. Obrigada pela conversa – ela disse, sorrindo.
– Foi a melhor conversa dos últimos tempos! Pedro, é meu nome. – Ele abriu o sorriso galanteador novamente.
Ali eles se despediram. A chuva seguiu, a noite já estava ali. Não trocaram telefones, só silêncio.
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