sobre rótulos e ego
Às vezes me perco pensando nos elementos que, com o tempo, passamos a associar a nós mesmos. Nos últimos dias vi muitos amigos fazendo aquela brincadeira no stories, que desafia outras pessoas a dizerem que “fulano não é fulano sem x”. Todo mundo quando abre esse tipo de discussão já tem, dentro de si, uma ideia, pra não dizer expectativa, com relação ao que as pessoas vão dizer. Seja vindo dos amigos que nos conhecem mais intimamente ou das pessoas com quem convivemos apenas nas redes sociais e que filtramos o que vai ou não ser divulgado sobre nós. O ser humano é um animal engraçado, nisso acho que podemos todos concordar. Me aprofundei nesse pensamento e refleti sobre os diferentes tipos de “rótulos” que me fazem sentir mais em harmonia comigo mesma. Nicoly não é Nicoly sem dias de chuva, sem um chá quente, sem flash back no dia da faxina, sem música folk, sem roupas cheirando amaciante, sem ativismo, sem pés descalços, sem cuidar dos amigos como vovó… E por aí vai. Ao mesmo tempo que pensar sobre isso me traz um conforto identitário, por saber quais são as coisas que me fazem feliz, eu vejo esses rótulos como um limitante em certos momentos. Há anos eu construo essas características, ainda que, muitas vezes, involuntariamente. E quando passamos a acreditar que nós somos, não só também, mas principalmente, essas características, não conseguimos nos enxergar como nós mesmos fora delas. Não sei dizer quantas pessoas já ouvi dizendo sobre o quanto fulano “não é mais ele mesmo” só porque não age da mesma forma ou gosta de coisas diferentes. E embora nossas atitudes digam muito sobre nós, existe algo, lá no fundo, que é inacessível para que convive fora de nós. Ou seja, todo mundo. Eu sei que é gostoso ouvir as pessoas que amamos reconhecendo coisas sobre nós, porque nos dá o sentimento de que o outro nos conhece e isso, além de ser confortante é um extremo massageador do nosso ego. No fundo todos gostamos de ouvir dos outros ideias sobre nós mesmos porque confirmamos se estamos fazendo um bom trabalho que construção que fazemos, quase que inconscientemente, de um personagem no qual os outros acreditam e, no final do dia, a gente também. Não que ele não seja real, mas tudo é uma construção. Talvez um dia a gente evolua enquanto espécie e perca esse prazer em sermos reconhecidos pelo outro. Até lá, confesso que gosto quando me dizem que eu não combino que a cidade ou que quando pensam em mim imaginam um chá quentinho e música irlandesa. Ah, o ego!
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