Procrastinação, confusão e saudade
Estou aqui precisando trabalhar e não consigo. Minha mente continua caçando
motivo pra me distrair do que é necessário. E sem entender, me peguei
lendo a gente do passado, e esse encontro é um misto de riso e saudade.
Queria que a gente conseguisse, nem que por um momento, recuperar um
pouquinho daquele desejo insano que nos cobria toda vez em que nos
encontrávamos. No nosso primeiro ano que, mesmo cheio de problemas,
escorria nosso tesão pelo outro e que, agora, se manifesta de outras
formas que eu estou tentando entender (e acho que você também). Éramos
outros. Às vezes nem sei se sei amar como amava naquela época. Ou se quero. Tudo é
diferente. O jeito de amar também. E eu abraço as mudanças, mas sinto saudade de nós. Me escorre uma
lágrima no canto do olho enquanto escrevo, no escritório, e disfarço
quando respondo sobre o próximo vídeo a ser entregue. Meus textos
agora muito se parecem com os de quando não estávamos juntos, nos quais eu insistia em falar da falta que sentia do nosso suor, dos nós no meu
cabelo e das nossas conversas existências que pareciam nunca ter fim. Acho que as indagações ainda existem, só não falamos mais delas. Ao menos não um com o outro. Lembrei de um trecho de um texto seu, inclusive, sobre nós: "e nenhum dos dois juntos, e nenhum dos dois sozinhos". Parece muito com esse momento. Exceto pelo fato de que, agora, estamos juntos. Em teoria. Tudo é teoria. Daqui a pouco vou pra casa e vamos falar do preço da ração dos gatos ou da tarefa da casa que um dos dois deixou de fazer. Talvez, à noite, a gente converse um pouco sobre passar uns dias de folga num chalé na cidade onde a gente se chamou de amor pela primeira vez. Talvez. Talvez você jogue videogame enquanto eu leio sobre a morte das abelhas ou salvo fotos no instagram de cabanas que, um dia, vão inspirar a minha. Talvez. Enquanto tudo é talvez, nossa rotina é previsível. Volto pra casa com a certeza de que nada intenso vai acontecer. Até nos desentendimentos a gente se encontra rápido. Penso, por um instante, bem que você poderia me jogar na pia enquanto eu lavo louça e matar nossa saudade ali na cozinha mesmo. Ou até mesmo brigar comigo, pra gente gritar, se estressar e transar depois. Exceto pelo fato de que eu não grito e se chegar ao ponto de fazê-lo, não vai ter sexo no final. Penso no vinho que regava nossas noites e que poderia levar um pra casa. Mas agora a gente não bebe mais, não como antigamente. Tem muito trabalho no dia seguinte. Aliás, preciso voltar a trabalhar. Faz uma hora que eu cheguei e só consegui abrir o projeto. Preciso deixar isso pra lá. Hoje eu preciso sair mais cedo, é minha vez de trocar a areia dos gatos.
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