Diário: o retorno do amor (ou do tormento)

No último domingo dois amigos meus se casaram. Fui madrinha. A cada palavra dos dois um para o outro eu derramava um dilúvio de lágrimas. Por trás da câmera que fotografava o acontecimento estava ele, o alvo de meu amor e saudade desde o inverno do ano passado. O sol batia em seus cabelos loiros e eu confesso que naquele momento já não olhava para ele com o carinho que há alguns meses faria. Ele era, para todos os efeitos, mais um amigo com quem em algum momento eu dormi. Claro que após todos aqueles meses, ao todo sete, desde a última vez em que nos vimos, meu coração já havia vivido todas as fases necessárias para a superação de um fim de relacionamento (se é que dá para chamar assim o que nós tivemos). Ao final da cerimônia a festa seguiu e acabamos conversando por alguns minutos, com a indiferença de dois conhecidos que já foram próximos. A música estava alta e começava a me incomodar, eu precisava de um tempo. Segui para a cachoeira, que desde o início da cerimônia estava gritando meu nome com sua melodia aquática. Desci como quem abraça cada pedra com os pés. De imediato me senti melhor. Como costumava fazer quando criança, peguei algumas pedrinhas e criei uma mira na água que caía. Estava ali, conversando com as pedras sobre como aquele momento era o rito de despedida do meu amor por ele, enfim. Foi quando ele apareceu, com seu silêncio de costume. Imediatamente eu me perguntei o que diabos aquela barba ruiva veio fazer ali. Ele entrou na água e veio em direção a mim. Eu, na minha vulnerabilidade emotiva, sorri e disse que coincidentemente estava pensando nele. Ele se aproximou e começamos a conversar aleatoriamente, enquanto ele também começou a jogar pedrinhas comigo. Dentre reflexão e outra, ideias avulsas, nos beijamos. Naquele momento o céu caiu sobre mim e senti como se aqueles meses longe dele fossem embora junto com a água que corria sob nossos pés. Eu já não me lembrava do seu gosto, da sua textura ou do quanto me fazia feliz ter meus dedos envolvidos por aqueles cabelos. Como quem ignora toda irracionalidade daquele ato, como quem esquece de todo mal antes vivido, eu estava entregue. Era difícil admitir, mas apesar da paixão ter cessado, nunca havia deixado de amá-lo. Ele estava diferente, claro e equilibrado como nunca havia antes visto. Falava com propriedade, esclarecia suas atitudes passadas e se desculpava por elas. A natureza, por si só, cantava nossa trilha sonora, pela primeira vez menos dramática que no último ano. Eu não sabia muito bem o que dizer, o que pensar. Dois dias atrás eu estava nos braços de outra pessoa, já me sentindo completamente livre de tudo o que vivi ao lado dele. Doce engano, eu diria. Ao mesmo tempo, eu sentia como se estivesse com outra pessoa, alguém novo, diferente do que eu havia conhecido. Conversamos por longas horas e decidimos coisas que antes era impossível fazê-lo. Aquilo me libertou. Por tanto tempo desejei tê-lo ao meu lado daquela forma, entregue. E naquele momento, por incrível que pareça, ele estava muito mais entregue que eu. Eu não sabia sequer como responder a seus carinhos. Mas a noite, quando estávamos juntos, no momento em que nossa pele entrou em atrito, toda confusão foi embora. Estava ali, a sensação na qual eu me apoiava há tanto tempo, a plenitude do amor. O tempo que seguiu foi incrível, como de costume. Mas resumindo, ele estava de volta, quando tudo o que eu não esperava era isso. Eu não sei quanto tempo vai levar até que eu me entregue sem receio ou desconfiança... De toda forma, tenho um bom pressentimento com relação a isso tudo. Como de costume: que bom que foi assim. 

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