Um texto perdido em arquivos (A deixa de 2015)
Era uma noite de sábado qualquer. As buzinas cantavam e os faróis iluminavam. Meu quarto estava escuro, a pouca luz ao redor tinha origem na vela posicionada em um dos cantos do cômodo. A música tocava baixinho, quando enfim ele chegou. Meu coração estava acelerado, excitado com a noite que, ilusoriamente, estava por vir. Beijei teus lábios, como de costume, sentei na cama, peguei na tua mão, esperando que caísse com seu corpo sobre mim... Foi quando de sua boca saíram pregos, perfurando toda essência da expectativa, todo conforto que surgiu em meu peito no momento em que, horas atrás, foi declarado estar tudo bem. Cada palavra - e eram elas previamente pensadas, obviamente - caíam em meus ouvidos como caem gotas de ácido na pele. Ardia meu peito, amargava minha boca, retornava toda dor que havia sido deixada para trás há alguns meses. "eu te amo, sempre vou amar. Você é maravilhosa, mas não posso mais lidar com nossa relação", ele disse. Não sentia verdade naquelas palavras, não achava possível um amor que não luta, que não tenta. Não podia acreditar num amor covarde. Não era amor, não podia ser. Eu voltava meus olhos para cima, a fim de estancar o choro, de evitar derramar-me diante daqueles olhos que me abandonavam, dos olhos que não mereciam meu vômito poético. "Acredito que poderíamos dar certo, mas não acredito nisso agora", ele disse enquanto tentava justificar a desistência, a decisão repulsiva da priorização do egoísmo num amor supostamente mútuo. "Eu sempre vou amar você", eu disse, só para reafirmar o que ele já sabia, "e espero que sejas feliz na sua decisão". Ele deslizou sua mão sobre as minhas e uma onda de calor subiu por entre meus dedos em direção à minha garganta, que de imediato dobrou de tamanho. Como dói tocar alguém quando tem-se em mente que é a última vez. Ele precisava ir. Ao menos acreditava que precisava ir. Entreguei-lhe suas coisas que descansavam no meu guarda roupa. Pedi para que olhasse pela janela com atenção, para que guardasse aquela vista, que sentiria falta dele. Ele sorriu e, naquela noite, cada sorriso me causava mais repudio sobre a situação. Debrucei-me sobre o parapeito, concentrando toda minha força em meus pulsos, dando-lhe as costas. "Nem um último abraço?", ele disse. Eu sorri, perplexa com a sua coragem de propor algo de tal natureza. Agi ironicamente. Mas eu amo, não poderia fazer como ele e deixar partir meu grande amor... Chamei seu nome de volta, baixinho, "Caio". Devagar o trouxe para perto, o abracei. O tive em meus braços pela última vez. Só pensava comigo o quanto para mim é impossível abandonar meu amor enquanto o olho nos olhos. Por alguns segundos tive esperanças de que, ao me sentir, ele retomasse sua decisão. Não aconteceu. Foi-se embora, fechou a porta. Não o olhei partir, mas do alto da janela o vi caminhar na rua. Naquele momento, pela primeira vez, ele olhou para trás, como quem sente dor - ou faz parecer que sente. Olhou para o alto. Eu me mantinha firma, as lágrimas não saíram. Então ele se foi, de verdade, para sempre. E eu fiquei. Sozinha, à luz da vela que fora posta para iluminar nossos corpos, à luz da vergonha e da dor de aceitar os fatos, à mercê de tudo o que eu julgava ser o mais importante na vida. E ali, com um descompasso cardíaco jamais sentido, mal podia me mover. Pensava comigo mesma, o quem tem aquele que não tem amor? Nada. Nada. Me senti tudo o que eu tinha e eu tinha nada. Eu o era, então. Era nada, sabendo ser tudo. Soube, ali, do vazio que me esperava nos próximos dias, meses, anos talvez. Não importa o quanto doa ao outro de si, não há, nem nunca haverá, garantias de que a doação será recíproca. E é essa a beleza, e a crueldade, do ciclo natural da vida... Perder aquilo que nunca se teve.
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