Meu sobrenome é Piegas (sobre filmes românticos e eutanásia)
Em um desses domingos preguiçosos, em que por opção e prazer tornamos os acontecimentos melancólicos, decidi ir ao cinema sozinha. Sempre gostei de fazê-lo. O filme era um desses clichês românticos de nossos tempos e de duas coisas eu tinha (quase) certeza. 1: haveria lágrimas; 2: a trilha sonora contaria com Ed Sheeran (ou algum genérico do mesmo estilo). Meu consolo: era um filme britânico, ao menos eu teria o deleite do sotaque. Uma fila que quase dobrava a esquina estava composta por casais de todos os tipos, alguns bastante recentes e que, perdoem meu preconceito, só de olhar dava pra dizer que eles não ficariam juntos por muito tempo (mas isso fica pra próxima reflexão). Lá estava eu, uma romântica incurável, de vestido florido e tênis colorido, que mesmo sabendo que não seria nenhum Antes do amanhecer, faria com que as duas horas passassem rápido por meio de uma infiltração de ideais utópicas relacionadas ao amor. Vocês sabem como é, quando estudamos Comunicação e entramos em contatos com obras como Amor líquido e O amor nos tempos do capitalismo, entendemos dolorosamente toda mentira que nos é ensinada sobre esse sentimento. Quando entrei na sala escura, o filme já havia começado. Conforme o tempo foi passando, nada novo. Uma menina boba e extravagante que cativa um rapaz problemático, fotografia bonita, atores bem apessoados, trilha sonora disciplinar (e bastante comercial), até ali nenhum segredo. Foi quando o filme tocou em um assunto interessante: a eutanásia. Obviamente a história não explorou o tema tanto quanto poderia, quebrando sempre a tensão com situações engraçadas. Mas como eu estava em um dia sensível, me aprofundei por conta própria na situação que estava diante de mim. O personagem se via diante de uma situação complicada: havia encontrado alguém incrível, mas condenado a viver em uma cadeira de rodas, sem sequer movimentar os braços, não se sentia ele mesmo, não poderia viver assim. Não era o tempo que ele viveria, mas como ele viveria esse tempo. A decisão que ele tomou não cabe dizer, mas ao final do filme vi alguns casais saindo e, em sua maioria, as garotas chorando. Me perguntei se ao chegarem em casa, após roçarem os corpos e trocarem libido, se um dos dois perguntaria "O que você faria?". Eu mesma, sinceramente, não ousaria dar uma resposta para uma situação que nunca vivenciei. Pensei na minha amiga que cometeu suicídio... E nas tantas pessoas que já tentaram o mesmo. É um assunto delicado, situações diferentes. Por isso não vou me ater a isso, que levaria a horas de reflexão. O fato é que eu, mesmo consciente de toda jogada comercial de uma ideia equivocada do que vem a ser o amor, não sou imune às emoções desse tipo de filme. Muitos são pensados, psicologicamente, para fazer chorar. E ainda assim, mesmo reconhecendo as estratégias cinematográficas, acabo chorando. Levou muito tempo para entender as razões dos meus choros inevitáveis, e mesmo sabendo hoje em dia, isso não muda. No final das contas, acho que absorvo o melhor, mesmo dos clichês. Sou uma romântica incurável, o que posso fazer? Meu sobrenome é Piegas.
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