Delírio etílico

Naquele dia, passara da meia noite quando o álcool lhe subiu à cabeça. Um mundo passou diante de seus olhos e não era somente a música que ilustrava aquele episódio repleto de frustração: a vida era, em si, um deleite a ser apreciado, e lamentado (mesmo que momentaneamente). A luz do abajur contornava a estrutura de vidro que dava lugar ao líquido responsável por tal estado de alienação e sensibilidade. Sabia que aquele momento não duraria muito, a tristeza não lhe caía bem, não duraria mais que alguns minutos... Por esse motivo tinha de aproveitar tal sensação. Sabia que estava ali, mais perto que nunca, o responsável por seu peito dolorido e expectativas desconstruídas. Quão bela é a vida quando se mostra honesta, clara! Um dos poderes do vinho, eu suponho, é dar aos dias um novo sentido, uma verdade antes não vista. As luzes da janela tornavam-se cada vez mais desfocadas, indefiníveis... uma pintura surreal, tal como seu sentimento. Era hora de matar a garrafa, absorver o líquido avermelhado e a canção dolorosa. O sono viria, naturalmente. Por hoje, seria só. Com a garrafa, morreria um nome, um cheiro. E assim o estado passou. Sorriu. A tristeza não lhe caía bem, afinal.

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