Diário: Os olhos da cor da grama

Era uma manhã de sexta-feira, diferente das demais. Eu estava longe de casa há pouco mais de uma semana e as viagens tendem a me deixar mais sensível. Naquele dia, acordei ao lado dos olhos verdes que há tantos dias me atordoavam - e distraíam da frustração dos últimos tempos. A luz entrava por entre a cortina (a muralha que nos separava do mundo) e chegava aos nossos pés, que involuntariamente se acarinhavam. Na estante sobre a cama, uma pilha de livros importantes, clássicos da literatura, expressão fiel da boêmia brasileira. Com suas mãos de seda, ainda contaminadas pelo cheiro de meu suor, o rapaz pegou um livro. Era Leminski. Leu em voz alta um de seus poemas preferidos. Eu me perguntava onde diabos ele se escondera por todo esse tempo!

A tarde nós passaríamos no parque, um dos lugares mais aconchegantes da cidade e que, depois desse dia, ganhou um lugar ainda maior em meu coração. Era dia de sol!  E por mais que dias quentes não me agradem como um todo, fiquei feliz com aquela luz que dava forma aos cabelos louros recém lavados. Caminhamos pela rodovia até chegarmos ao parque. A cada rajada de vento, ele sorria. O sorriso mais aberto que eu havia visto. Um deleite, um pecado! Seus olhos são verdes, verdes como o gramado onde estendemos o tecido vermelho que seria nosso descanso nas horas seguintes. Passamos a tarde sob o azul do céu, do sol que não dava trégua. Embrenhados, apaixonados, mesmo que por pouco tempo...

Não há muito a dizer sobre ele senão que é um pedaço de mar em um lugar de terra seca, onde toda energia fora sugada por dias passados. Ele trouxe umidade para meus dias quando tudo o que eu sentia era alergia. Uma outra coisa a se dizer sobre o dono daqueles olhos é que essa que vos fala, apesar de consciente do pedaço de céu que tinha em mãos, fora ingrata. Todo o brilho por ele refletido fora ofuscado pelo calor de outros braços que há muito haviam deixado um vazio gelado em minha cama. Nos dias de viagem, aquele amor de primavera haveria de me fazer feliz, mas ao voltar para as terras del rei, sabia que já não mais o teria com tanto apreço dentro de mim. Nesse momento entendi, na prática (e na marra) o significado da frase "deixe sair antes de entrar". C'est la vie. 

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