Tempo de inverno
"É tempo de inverno, amor! Tempo dos galhos secarem!", disse ele na última carta que escrevera. Motivado pelos dias de solidão intensa, fizera do papel um escape ao frio. Frio que fortificava-se na ausência de seu nome. Do nome dela. A menina aquecia-lhe o cobertor, mas principalmente o peito - feito raro em tempos de amores efêmeros. Sentia na xícara deixada na pia o calor de sua pele macia, os resquícios de sua presença deixados pelas digitais. Há dias não lavava a louça. A bagunça deixada por ela era ainda a única lembrança visual que restara. Caminhava toda manhã, como era de costume, e tudo o que via eram galhos secos, frutos invisíveis. Na certa aqueles galhos no chão, sem vida, eram uma metáfora para sua própria situação: sem sustenção nutricional, caíra diante da primeira ventania, aniquilado pelo mal da estação. É tempo de inverno. Os dias são frios. Mas ele gosta do frio! Ser folha seca não lhe soa ruim. Gosta da ideia de secar agora, voltar a ter cor com a primavera. Ele mirou para o alto, desenhou os galhos com os olhos e continuou a carta: "É tempo de inverno, amor! Tempo dos galhos secarem! Peço que não volte tão cedo. Não interrompa essa solidão necessária! É bom estar só. É preciso estar só. Meus lençóis são mais honestos sem teu suor. Peço que se demore. Prometo explicar os motivos em outra carta. Agora é preciso lavar a louça, ainda que as mãos doam com a água gelada. Sinto saudades, mas não se apresse em voltar. Quiçá, não volte".
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