Manhã de domingo


Naquela manhã de domingo, a chuva falou mais alto que o normal. Sentada no quintal, ouvindo as galinhas e observando o ritmo úmido do gramado, ela pensava em tudo que experimentara desde o inverno passado. Pensou no ano que viveu até aquele momento. O ano em que, pela primeira vez, soube o que era o amor. Todo mundo se lembra da primeira vez em que sentiu, pra valer, aquilo que os poetas cantam desde o início dos tempos: o amor puro, leve, tal qual é. Para ela, era difícil pensar que aquele sentimento, outrora tão forte e real, começava a se esvair, a se dissolver com a naturalidade do tempo que passa. Ela olhou para tudo o que viveu antes de encontrar "a pessoa", pensou nas tantas vezes e que pensou estar amando quando na verdade não estava. O amor, até que se manifeste, é mal compreendido. Pode ser facilmente confundido com a dor, com a euforia. Mas o amor, ela pensava, é calmaria. Ela voltou os olhos para porta da cozinha, o lugar em que pela primeira vez se deu conta de seu sentimento pelo rapaz que há muito decidira partir. Sentiu na pele cair a chuva que tantas vezes compartilhou com ele. Era a mesma, porém diferente. Uma vez que se sente a chuva sob a sensação de amar e ser amado, tudo muda. Temeu, por alguns segundos, nunca mais sentir aquilo com tal intensidade. Muitos jamais sentiram sequer uma vez, seria generosidade do universo se aquilo viesse a se repetir em sua vida. Pensou se preferiria nunca ter vivido aqueles meses, e jamais conhecer o sentimento que viria a ser base de toda relação dali em diante, ou se seria melhor jamais ter tomado conhecimento dele. Agora, que ela sentia a partida com alegria, o sentimento de incômodo fora substituído pela plenitude de um dia, mesmo que não por tanto tempo quanto gostaria, ter amado. A chuva nunca foi a mesma depois daqueles olhos e ela, com alegria, aceitava que jamais seria. E que bom que foi assim. 

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